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segunda-feira, 9 de julho de 2012

2º DIA

- "Obrigada por toda a sua atenção, Sr. Joaquim."

Foi assim que me despedi hoje, ao fim do dia, do companheiro de quarto do meu filho.

De manhã quando entrei e me pareceu que estavam os dois a dormir mantive-me em silêncio a olhar para a palidez do meu filho. De repente o Sr. Joaquim levanta a cabeça, e diz-me:

-"O filho da senhora tem passado muito mal. As enfermeiras têm andado todas de volta dele."

Já ontem quando saí, tinham ficado quatro à volta da cama dele.

Disse-me o meu filho mais tarde, que o próprio Sr. Joaquim, além de chamar as enfermeiras, se tinha levantado da cama dele, com as duas canadianas, para vir ajudá-lo. Porque quase desmaiou por várias vezes.

O Sr. Joaquim, com cerca de 60 anos, foi operado a uma rótula e já é a quinta vez que é internado neste hospital. O que mais me surpreende nele são os seus óculos, super modernos. Modernos, e de bom gosto. Como nunca vi nenhuns. E que contrastam com a sua forma de falar. Contou da operação de alguem à "tirone" e ao "estomo". Diz uma palavra, um palavrão. Mas gosta-se dele. É atencioso e boa gente. Ele e o meu filho já combinaram jogar às cartas e amanhã até vou levar um baralho. Dizem que faltam dois parceiros para jogar à sueca e que vão ter que convidar duas enfermeiras...

Só estão o Zé Miguel e o Sr. Joaquim, embora seja uma "sala" de quatro camas. Ontem esteve também um menino de 14 anos. Entrou para o quarto ao mesmo tempo que o Zé Miguel mas foi operado logo no início da tarde. Quando o via a sair para o bloco operatório é que percebi que ele práticamente não tinha mão esquerda, tinha só 3 dedos, que saiam pouco abaixo do cotovelo, e depois a mãe disse-me que na mão direita também só tinha três dedos. Quando nasceu o médico disse à mãe que era uma menina. Depois é que veio uma enfermeira dizer que era uma menino e que tinha uma mal formação grave nas mãos.

Quando o vi hoje a ser levado para o bloco senti-me tão impressionada e tocada que me dediquei logo a tratar da energia que envolvia toda a cirurgia. Percebi que a malformação dele estava em grande parte relacionada com uma vida passada com a que é hoje irmã dele. Uma menina linda de 6 anos, a quem ele tinha estado sempre agarrado enquanto esperava ser chamado e de quem é inseparável, pelo que a mãe me contou.

Sem ede nada, a mãe aproximou-se de mim para comentar que estava a achar estranho que a cirurgia estivesse a demorar tanto. Estava muito preocupada. Era a quinta operação desde que nasceu. E sem que eu lhe perguntasse, começou a contar-me tudo. Que o filho lhe pedia todos os dias uma irmã. Não era um irmão, era uma irmã. Queria muito, muito, uma irmã. Mas ela tinha decido não ter mais filhos com medo que nascesse com alguma malformação, como ele. Só soube que estava grávida da filha, aos cinco meses de gravidez, porque a continuação do período não a tinha levado a desconfiar de nada. (Como tudo acontece, quando tem que acontecer...) O parto teve que ser provocado aos sete meses por ter entrado em pré-eclâmpsia devido ao alto de grau de ansiedade sentido por medo que a bebé tivesse más formações. Felizmente a menina é "perfeita" e linda,(ressalvo: de acordo com o que para nós é perfeita, porque o irmão também é perfeito). E lindo porque quando a mãe dele me pediu para lhe levantar a cabeceira da cama olhei para ele vi uns olhos azuis lindos...ao ponto de exclamar: "Meus Deus, que olhos!"

Chegou uma enfermeira a dar a notícia que a operação dele correu melhor do que se esperava, que não tinha sido preciso fazer o enxerto de pele que estava previsto e que por isso ele poderia ir ontem mesmo para a casa. Foi a grande surpresa da mãe.

Despediu-se de mim com um beijinho. Tinhamos acabado de nos conhecer mas tinha-me contado grande parte da sua vida, e da sua profissão de camionista. Ela e o marido são condutores de longo curso e fazem as viagens juntos. Fiquei a saber imensas coisas interessantes sobre uma profissão que achei também muitíssimo interessante.

Como se foram embora, ficaram só o Zé Miguel e o Sr. Joaquim. Segundo ele prevê nos próximos dias entrará mais gente. O Hospital é pequenino e antigo, mas está remodelado e é muito cuidado. A sala deles fica num pequeno corredor, sossegado e virado para o jardim.

No período de almoço, enquanto esperava pela hora de poder voltar a entrar, fui dar uma volta pelas ruas de Riba de Ave, que como era Domingo e estava tudo fechado, me pareceu uma vila fantasma. Muito mais pequena do que eu imaginava. Ontem tinha perguntado a uma senhora da recepção onde era o centro da vila. Que centro?, perguntou ela. De facto não há. Tenho três horas no período de almoço, em que não são permitidas visitas, e nada para ver, nem sítio onde estar. Nenhum parque. Tem só a sombra das arvores aqui na capela ao lado, disse-me a tal senhora.

Mas tem esta rua, que achei linda:



Linda e calma. E hoje ao fim do dia, quando saí, também estava tudo calmo. O Zé estava melhor e mais tranquilo. Já tinha recuperado a cor e tinha menos dores. Comeu, pela primeira vez em 48 horas. O Sr. Joaquim ia ver "Pai à força", na televisão. E eu saí a correr, porque o segurança me veio dizer que as visitas tinham que sair. Amanhã volto.

domingo, 8 de julho de 2012

HOSPITAIS OUTRA VEZ

O meu filho tinha uma cirurgia reconstrutiva de uma cicatriz, marcada para Setembro.

Na passada terça-feira, quando eu estava a entrar para o comboio com destino a Lisboa, recebi um telefonema do hospital, a informar-me que, por razões burocráticas, a operação teria que ser realizada neste Sábado.

Com o telefone ainda colado ao ouvido vim à porta da carruagem chamar por ele " Zé Miguel, vais ser operado no próximo Sábado"! O quê? perguntou ele, e o comboio arrancou.

Tinha acabado de me abraçar com todo o carinho. Com muitas declarações de amor. E com a promessa de me visitar em Lisboa.

Fui o início da viagem a fazer telefonemas para que se conseguissem fazer todos os exames médicos necessários antes da operação.

Sentia-me apanhada de surpresa e muito agitada.

Minutos antes, ao entrar na estação tinha-me sentido uma nómada. E foi a primeira vez que essa expressão me veio à cabeça. Lá ia eu outra vez para Lisboa, e lá estava eu a despedir-me outra vez do meu filho. Sempre a parte mais difícil. Na última terapia que fiz o Céu falou na importância da mobilidade na minha vida. Não me sentir fixada a lado nenhum. E realmente aí estava a mobilidade. Ao arrancar para Lisboa prevendo ficar lá por umas semanas, afinal já ia ter que regressar daí a 3 dias.

Todos estes pensamentos impediam-me de centrar , de relaxar. Só a partir do meio da viagem consegui conectar-me. E quando estava a dizer a Jesus "Vim entregar o meu filho"...Ele respondeu-me "Já estamos a tratar de tudo."

Senti um conforto...um amparo, um amor maior do que tudo o resto. Quando somos confrontados com algo que nos assusta temos a impressão de ter acontecido algo que não era para acontecer. Que podia ter sido evitado. E não temos noção de que TUDO acontece como tem que acontecer. Mesmo que aos nossos olhos nos pareça errado ou injusto. Energéticamente nada é errado ou certo. Nada é bom ou mau. Tudo é como tem de ser. E quando Jesus me respondeu, isso ficou muito claro. Já estava tudo a ser preparado para ser assim. Os propósitos, os designios, até nos podem escapar. Mas mais tarde ou mais cedo vamos perceber porque é que teve de ser assim e não de outra maneira.

Isto estava a acontecer no dia 03 de Julho, terça-feira. O acidente do Zé Miguel que desencadeou tudo, foi no dia 02 de Julho de 2008. Tinha feito na véspera quatro anos.

Ontem, Sábado, dia 07 do mês 07, dia da operação. Estava no meu quarto a acabar de preparar as coisas para levar para o hospital e ouço nas minhas costas a voz do meu filho "Bom dia princesa! Amo-te muito." O abraço mais terno do mundo e uma queixa: estava enjoado. Pensei logo que este ia ser um dia longo...muito longo. E foi. Todo o dia em espera. O Zé só se lembrava da operação ao apêndice de há 4 anos. Da cicatriz que não cicatrizava. Do mês inteiro no Hospital de S. João. Agora estavamos no Hospital de Riba de Ave. Mas o medo de que tudo se repetisse Em jejum, só foi operado às 22h.

Regressou ao quarto quase à meia noite. A chorar com muitas dores e muitos tubos. As enfermeiras pediram-me para sair. Tinham deixado os pais ficar até ele chegar da cirurgia mas como era maia noite não podiam deixar ficar mais tempo.

Pedi-lhes para não o deixarem ter dores. que lhe dessem toda a medicação que pudessem, mas que por favor não o deixassem ter dores. Disse-lhes que ele já tinha sofrido muito e por isso estava tão preocupada. Garantiram-me que iam fazer tudo o possível.

Já no carro, liguei a ignição, mas não conseguia arrancar. Tinha que voltar para casa, mas o meu coração ficava lá. A Vãnia ligou-me nessa altura e senti-me mais confortada. Aliás fui confortada toda a tarde com as mensagens das minhas amigas.

Arranquei. Durante a viagem senti que mais uma vez tudo tinha que acontecer sozinha. Nos momentos mais dificeis. Sózinha físicamente. O estômago estava embrulhado, encolhido, doía-me. Eu que nunca tenho dores de estômago. A menos que esteja no limite de uma emoção difícil. As pernas tremiam-me. Às tantas encostei o carro e parei. Tentei restabelecer-me. Lembrei-me do que tinha sentido no quarto do hospital. O colo de Jesus. Que na altura até me fez do texto de pegadas na areia. De que realmente é nos momentos mais dificeis que mais cuida de nós. Retomei a condução e cheguei a casa. A chorar.

Agora estou de saída para lá. De volta ao circuito dos hospitais.

terça-feira, 10 de maio de 2011

IPO hoje, 10 de Maio

Depois de 3 dias maravilhosos em que encontrei amigas que não via há muito tempo, inclusive um amigo que não via há mais de 20 anos, em que tive almoços e jantares maravilhosos com amigas com quem não tinha oportunidade de estar há também muito tempo...depois de 3 dias em que o meu filho esteve mel...nem a ida com ele hoje ao IPO ( consulta de rotina) me perturbou...assim que entrei pensei: quem será que vou encontrar hoje? Já conheci lá tanta gente e já encontrei lá tantas pessoas que conhecia doutros lugares...e mal entrei vi uma enfermeira a olhar muito para mim que eu não estava a reconhecer...ao passar por ela, sorriu-me e eu perguntei: conheço-a, não conheço? "Conhece sim, mas não daqui. Atendeu-me quando trabalhava na Boavista" Já lá vão uns 3 anos. Ela já sabia que agora eu estava em Oeiras. Entretanto lembrei-me que ela tinha uma filha, e só a seguir me lembrei que também tinha chegado a atender a filha. Aliás com um caso curiosíssimo.


Tive oportunidade de dar beijinhos a mais pessoas que lá trabalham e que conheço sem ser dali, e entretanto foi-nos dito que havia uma confusão com a consulta. Mas, para evitar nova deslocação o Zé ia ser atendido na mesma. Era um nova especialidade. Nunca tinhamos ido àquela consulta. Muita gente. Quando passei pela sala onde estavam as pessoas à espera pensei: coitadas destas pessoas que nem respiram aqui...nem sabia que era ali mesmo que ia ter que esperar...E surpresa: atendeu-nos uma médica de quem já tinha ouvido falar muito, porque tenho grandes amigos que também são amigos dela. Ainda não a conhecia. Só de ouvir falar. E ela também. Mas quando nos viu disse: eu já os conheço! Expliquei quem eramos e conhecia-nos, sim, mas só de nome.


Curiosos encontros.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O TEXTO QUE ESCREVI NO DIA EM QUE FEZ UM ANO QUE O MEU FILHO TEVE O ACIDENTE

02 de Julho de 2009

Hoje faz um ano que o Zé Miguel teve o acidente de bicicleta.

Comecei o dia com uma meditação. Recordei todos os momentos e imagens mais marcantes deste ano. Parece que hoje tive mais noção de como o Zé Miguel tem sido um herói.

Recordei o momento em que me deram a noticia do acidente, o momento em que ia a caminho do hospital e telefonei ao meu pai que não me conseguia responder se era grave ou não...só chorava...(porque, disse-me mais tarde, quando o viu pensou que ele estava morto)...o momento em que cheguei ao hospital e não me deixaram aproximar dele, que estava a ser levado numa maca pelos bombeiros. Do choro desesperado em desabei no meio do corredor com gente à volta a olhar para mim em silêncio.

Os bombeiros acabaram por me vir chamar, estava todo imobilizado com talas, com sangue na cara, olhos fechados, sobrancelha caída, orelha caida, sangue nas pernas, abriu os olhos e disse: “Mãe, amo-te muito” e voltou a fechar os olhos, parecia inconsciente...

Nesse dia começou um calvário.

As suturações das feridas em que suplicava que parassem, que já não aguentava mais. Os curativos diários, o ter que arrancar a pele das costas e ombro, porque no primeiro curativo lhe tinham colado algodão nas feridas.

As dores insuportáveis, as febres, os dois dias seguintes ao acidente, na urgência do hospital, em observação. O não descobrirem o que ele tinha. O desconfiarem que era um hematoma abdominal, consequente do acidente. Os exames. As vozes dos médicos que baixavam quando me aproximava. O diagnóstico de apendicite aguda ao fim do segundo dia e a decisão por uma cirurgia imediata, da máxima urgência.

Os dias a passarem sem poder ter alta. Mas sempre convencidos que tinha sido apenas uma apendicite aguda, que estava tão adiantada que rebentou e médicos tiveram que limpar tudo. Amostra foi para análise, mas de certeza que era só apendicite com hematoma, diziam os médicos e enfermeiros. A cicatriz que não cicatrizava, os curativos com muita morfina em que pedia que me afastasse porque a minha cara de terror ainda o assustava mais.

O calor insuportável no quarto mínimo do hospital com quatros camas e um cadeirão. Passaram-se assim vinte dias.

Sempre amável e brincalhão com os enfermeiros e médicos, mas sobretudo com as enfermeiras.

O dia em que chegaram dois médicos que queriam falar com os pais, como estava só eu iam falar comigo, e numa mesa redonda do gabinete dos médicos, disseram-me que o meu filho tinha uma cancro maligno. Um sarcoma de Ewing. Ao principio não percebi o nome nem quis perceber. Aliás não ouvi a maior parte do que disseram. Tinha percebido o principal. Que era um cancro extremamente raro e muito agressivo. Fiz duas ou três perguntas. Pedi para me deixarem a sós. Algum tempo depois entraram cerca de cinco enfermeiras com um copo de água e açucar, ampararam-me no choro. Não as vou esquecer. Insistiram para que tomasse medicação. Recusei.

Fui contar ao Zé Miguel. Ficou triste. Não percebia bem o significado do que estava a acontecer.

Já tinha ligado ao pai, quando saí com os médicos, que veio a correr.

Lembro-me de nesse dia estar a caminhar no corredor do hospital e sentir Jesus ao meu lado. Afinal não estava sozinha. E foi sempre a Sua presença que mais me ajudou até hoje.

Havia que decidir, continuar no S.João ou ir para o IPO.

Pedi que deixassem o Zé Miguel decidir. Foi conhecer as instalações de oncologia pediàtrica no S. João e assim que viu os cubiculos em que mal cabia uma cama de solteiro, em que iria ficar nos períodos de isolamento, decidiu que iria para o IPO.

No dia 28 de Julho começou a quimioterapia no IPO.

E começaram os internamentos, de vinte e um em vinte e um dias. Os vómitos, as aftas, os dias sem comer, as infecções, os períodos de isolamento.

Estive hoje a contar e neste último ano esteve cerca de cinquenta e cinco dias sem comer, só de uma vez esteve doze dias seguidos sem comer. Emagreceu mais de vinte quilos, já os recuperou.

Nos internamentos sempre amoroso, sempre terno, queria que lhe fizesse festas e massagens e fazia-me miminhos e repetia o quanto me amava. Ao longo deste ano as mães dos sucessivos meninos que ficavam na cama ao lado diziam-me da “inveja” que sentiam porque os filhos não deixavam que lhes tocasse e as tratavam mal (e era mesmo verdade, por muito amorosos que fossem, descarregavam sempre nas mães).

Sempre metediço com as enfermeiras elas “derretiam-se” com as lisonjas dele e no dia que tinha alta agarrava-se a elas a agradecer e a dizer o quanto gostava delas.

Ficavam todas com as lágrimas nos olhos.

As noites em casa, passadas em claro, a vermos o “Miami Ink” e o esquadrão da moda.
Sempre juntos. Sempre agarrados um ao outro.

Terminou há duas semanas as catorze sessões de quimio, a mais agressiva que há, com a duração de cinco dias cada uma, que estavam previstas. No último dia teve um ataque de pânico.

Não foi a primeira vez. Houve um dia em que achava que não ia conseguir aguentar a quimio, os enjoos, os vómitos. Recusou-se a ser internado. Fechou-se na casa de banho. Ameaçou fugir. Tentou. Corri atrás dele pelos corredores fora. O pai não estava. Acabou por vir um tio ajudar. Após cinco horas aceitou subir para o internamento. Um médico a ampará-lo de cada lado. Ao entrar no elevador atirou-se para o chão do corredor em crise convulsiva de choro. Chegámos ao 12º andar e não saía do elevador, continuava a chorar convulsivamente.

Ainda hoje vêm ter comigo pesssoas que não conhecia, mas que assistiram à cena. Vêm perguntar como é que ele está. Uma funcionária fez amizade comigo, desde aí.

As enfermeiras, impotentes, diziam que apesar de tudo tinha muita sorte, porque ele é muito amoroso. Que já tinham assistido a cenas dessas com outros adolescentes mas que eram muito violentos.

Agora não sabemos o que nos aguarda.

Talvez uma sessão de quimio mais forte e autotransplante de medula óssea. Terá que estar um mês em isolamento no IPO. Talvez no mês de Agosto. Mas ele tem esperança de não ter que fazer. Vamos deixá-lo relaxar o mais possível até chegarmos perto da data.

Hoje, na minha meditação, mais do que a minha dor, tive consciência do tamanho do amor do meu filho, do heroísmo dele. De como passou por tudo isto com uma coragem, que duvido que eu tivesse.

Assistir à dor dele sem quase nada poder fazer, foi a minha grande dor. Brutal. Esmagadora.

Mas ele, para além da dor emocional, do medo, da angústia, do cansaço, do desânimo, teve que lidar com uma enorme dor física, muitas vezes insuportável, que lhe fez dizer mais do que uma vez: “Desisto. Não aguento mais.”

Teria imenso para contar aqui, tantos acontecimentos que ajudariam a ter melhor ideia de tudo o que tem passado, de tudo o que se vive no IPO, de todas as famílias que conhecemos, de todos os médicos e enfermeiras que nos tocaram tão profundamente. De tantos meninos cheios de coragem. De tantos que vimos partir…

De toda a nossa família, amigos e conhecidos que nos ajudaram a chegar até aqui. Sei que não tenho palavras para agradecer toda a ajuda mas sei que todos vão saber e sentir o quanto lhes estou grata.

De tantas emoções boas que vivemos, tantos momentos de intensa felicidade. De tanto amor que recebemos.

Da fé que se redobrou. Da gratidão permanente ao Céu.

Da certeza de que nunca, nunca, estamos sozinhos, aconteça o que acontecer.

Mas hoje queria mesmo é contar como amo o meu filho, de como o admiro, do exemplo de coragem e amor que ele tem sido para mim.

Queria contar como o meu filho é um Herói. E o grande amor da minha vida.

SEXTA FEIRA SANTA E A DOENÇA DO MEU FILHO

Ontem "ouvi" que tinha que publicar um texto hoje. O texto que escrevi no dia em que fez um ano que o meu filho teve o acidente. E que tinha que ser hoje, na Sexta Feira Santa. Não estava a perceber a relação. De facto já tinha dito tantas vezes, até já tinha escrito em textos anteriores, que ia publicar aqui esse texto e acabei sempre por não o fazer porque sentia que não era a hora. Mas agora não estava a perceber porquê hoje. E Jesus explicou que era porque eu no texto falo do meu calvário...Fiquei surpreendida...é que não me lembrava sequer que nesse texto eu usei o termo calvário...

E como nada é por acaso...eu que não vejo televisão, e não ligo a de minha casa há meses (verdade!), só vejo em casa da minha mãe porque ela a tem sempre ligada e às vezes vejo apenas uns minutos, hoje, quando acordei vim para a sala e liguei a televisão...e quando estava a ligar estava a pensar..."O que é que se passa comigo hoje?"...comecei a fazer zapping e parei na TVI...o Goucha estava a entrevistar um padre, motard, vestido como tal, que estava a contar a experiência dele com o cancro.

Não vi a entrevista do início, mas percebi que tinha a doença há 6 anos, que agora estava com metástases, e que não sabia se teria meses ou semanas de vida. Contou como a doença o aproximou ainda mais de Deus, como a sua fé se reforçou. Perguntava a Deus o que é que Ele lhe estava a querer ensinar através da doença. E como descobriu tanta coisa sobre si e sobre os outros. Como houve pessoas de quem não contava, que lhe deram um amor totalmente incondicional. Que recebeu um mimo que nunca tinha recebido. E que houve outras que se afastaram. E como no meio disso tudo, aprendeu que era um privilegiado. E que estava sempre protegido. E como aprendeu a amar mais Deus.

Tudo o que eu também aprendi com a doença do meu filho. E sobretudo aprendi a amá-lo mais ainda, ao meu filho. Dediquei-lhe esse ano. Mas aceitei afastar-me a seguir. Porque percebi que amor não é apêgo. E que depois do meu divórcio ele tinha sido o centro da minha vida. Tinha-me apegado a ele e feito dele a razão da minha vida. E isso não podia ser. Eu tinha que ter uma vida própria. E aprender a amá-lo, tendo eu a minha vida, e deixá-lo ter a dele. Aceitei isso com toda a serenidade. Porque já tinha aprendido que podia nem isso ter.

Aprendi a ir largando. A largar tudo. Porque nada é meu. Tudo é da vida. E a vida dá, a vida tira. E o amor incondicional é isso. O que estou a aprender. Aprender a amar sem ter.
E agora aqui vai o texto que escrevi no dia 02 de Julho de 2009.

PS: E por falar em padres. Só houve dois dos que conheci, de que gostei. O que me casou, amigo da minha mãe, e que quando lhe perguntei dias antes do casamento, num jantar em minha casa, se não tinha que me confessar, ele me respondeu: "Tu não tens pecados pois não? Então já estás absolvida." Era como se ele soubesse que o pecado não existe. E é nisso que acredito. O outro, é um amigo da família da minha amiga Lu, que quando vi pela primeira vez, me fascinou com o seu longo cabelo negro, preso em rabo de cavalo. Missionário. Anos depois havia de ser ele a benzer o apartamento que comprei. Eu que não era nada dessas coisas, na altura achei melhor fazê-lo.Com uma boa disposição contagiante, ficou comigo e a Lu a ver futebol, a beber cerveja e a comer tremoços. Voltei a encontrá-lo no ano passado, com o cabelo mais curto e grisalho. Tempos depois deste último encontro Jesus disse-me que ele era a alma mais parecida com a minha que andava aqui na Terra. E que o que mais nos unia, era também o que mais nos afastava. A nossa fé. E a forma como a tinhamos professado. Que no caso dele o tinha levado para o Chade, em missão, onde vive há anos. E onde me convidou, a mim e à Lu, a visitá-lo.

quarta-feira, 30 de março de 2011

IPO hoje- e o dia da notícia.

Hoje tivemos consulta no IPO e a confirmação das boas notícias (falo no plural porque é como se as consultas e os exames também fossem meus). Antes da consulta o Zé fez um Raio-X torácico mas só vamos saber o resultado na próxima semana.
Quando estávamos na consulta o médico recebeu um telefonema. Era sobre um Sarcoma de Ewing. Estremeci. Lembrei-me do dia em que me foi dada a notícia. Por este mesmo médico.

Na altura o Zé estava no Hospital S. João, a recuperar de uma operação a uma apendicite aguda. Três dias depois de ter caído violentamente de bicicleta por uma escadaria. A recuperação estava a ser demasiado lenta. E um dia chegaram ao quarto dois médicos que queriam falar comigo a sós.

Um deles era o oncologista pediátrico, que eu nunca tinha visto. As primeiras palavras que me disse, foi que o meu filho tinha um cancro maligno. Um cancro muito raro e agressivo. Que atingia quase exclusivamente adolescentes. Um Sarcoma de Ewing. Já não estava a ouvir. Já nem percebi o nome (quando dias depois fui pesquisar na net, procurei cancro que acabasse em “ing”...). Ele continuou a falar, eu continuei a olhar para ele mas já não ouvia. Lembro-se só de perguntar que palavras devia usar para contar ao meu filho. O resto não lembro. Pedi para ficar a sós.

Sempre fiquei a gostar do Dr. Nuno. Era directo, frontal, sem meias palavras. Mas não era bruto. Tanto o Zé como eu gostamos dele. E quando ele nos disse que tínhamos de decidir entre continuar no S. João ou ir para o IPO, lamentamos ter que o deixar. Ele deixou-nos as portas abertas e voltei lá várias vezes para falar com ele. Foi com ele que me aconselhei sobre a viagem à Alemanha. Sobre o Prof. Jurgens. Sempre lhe disse que embora não tivesse razão de queixa nenhuma dos médicos do IPO, lamentava que não fosse ele o médico do Zé. E ele sempre me respondia para não dizer isso, que o Zé estava muito bem entregue.

Um dia soube que o Dr. Nuno tinha vindo trabalhar para o IPO. E continuei a ir falar com ele sobre o Zé. Especialmente quando Zé teve que repetir uam ressonância porque resultado não era claro. Em Outubro passado, num dia em liguei para o IPO por causa de uma consulta do Zé disseram que ele já não ia ser atendido pela médica dele…que ela estava de baixa…perguntei se era grave…a enfermeira respondeu que era a doença da casa…comecei a chorar…a enfermeira dizia para não me preocupar que ele ia ser atendido na mesma..expliquei que óbviamente que não era por isso que estava a chorar…era pela doença dela…Foi um enorme choque…Pedi se, nesse caso, podia passar a ser doente do Dr. Nuno. E foi assim que o Dr. Nuno passou a ser médico dele outra vez.
Quando hoje o ouvi pronunciar as palavras “Sarcoma de Ewing” revivi tudo outra vez…e contei-lhe, quando ele desligou o telefone. Contei-lhe também que na altura nem percebi o que ele tinha dito, embora tivesse fixado a sonoridade…

Pedi-lhe para me deixar tirar-lhe uma fotografia com o Zé…ficou bonita.

Já que falo nisto, vou publicar a seguir o texto que escrevi no dia em que fez um ano sobre o acidente do Zé.

quarta-feira, 2 de março de 2011

IPO- 12/01/2011

Ontem fui com o meu filho ao IPO. Consultas de rotina. Aparentemente está tudo bem, dentro da normalidade.

Ir lá implica o choque do costume. E quando estavamos numa fila reparei numa exposição nas paredes do corredor. Fui ver. Eram fotos de excelente qualidade, como obras de arte, de meninos da idade do Zé Miguel, nos quartos do internamento. Retratam muito bem tudo o que lá se passa.

Os computadores, as consolas e telemóveis com que eles se tentam distrair.

Uma menina encolhida na cama.

Outra, a mãe a dar-lhe a comida à boca.

Outra com a perna amputada.

Ao vê-las senti como um soco no estômago. Além do aperto no peito. Das lágrimas a cairem.

Voltei para junto do Zé neste estado. Ele perguntou-me o que se passava e disse que não era motivo para ficar assim. Passados minutos quis ir ver. Voltou em silêncio, e assim permaneceu por um bom bocado.

Até a senhora nos atender e perguntar pela namorada dele, depois dirigiu-se a mim e perguntou-me se ela tinha falecido. Outro murro no estômago. De repente só me ocorreu que ela tinha pensado que a namorada era alguma menina de lá e que essa menina tinha morrido. Mas não. Falecida, era a expressão para "ex"...Alívio...

A seguir fomos visitar as enfermeiras e levar-lhes bolos que eu tinha resolvido fazer para lhes oferecer. Quando me viu a fazê-los o Zé Miguel perguntou por que é que os estava a fazer. Eu respondi que por Amor. Que é assim que acho que tudo deve ser feito.

Enquanto o Zé esteve internado nunca lhes ofereci nada. Para que não fosse interpretado como forma de pedir de favores ou tratamento especial. Só comecei a oferecer depois de ter terminado os tratamentos, como forma de agradecimento. Porque na verdade sempre o trataram como um príncipe.

Quando o viram ontem fizeram-lhe uma grande festa e disseram que ainda na véspera tinham falado nele por ele ter sido o verdadeiro "D. Juan" ...

Acham-nos com excelente aspecto, como se o Zé tivesse crescido 20cm e eu tivesse rejuvenescido 20 anos...

Fomos almoçar a ver o mar, na Foz. E depois a despedida na estação de Campanhã. Foi a primeira vez que assim que fiquei sozinha comecei a chorar. Foi mais difícil talvez por termos estado no IPO. Por ele estar mais doce do que nunca. Por termos estado os dois doentes, nos últimos dias. Procurei o meu lugar e, providencialmente, era o último lugar do comboio, o último lugar da última carruagem...o que me permitiu chorar à vontade.

Vim todo o caminho a ouvir as músicas do meu IPod. Senti que uma das músicas, que apesar de estar no sistema aleatório, estava sempre a repetir, tinha uma mensagem para mim. Mas não estava a percebê-la. Só quando estava quase a chegar a Lisboa é que se fez luz e comecei a ouvir o que estava a querer ser dito. E comecei a chorar outra vez. Mas desta vez, de alegria, de conforto. Por saber que não estava sozinha. Na verdade, eu já sabia, mas é sempre bom ouvir isto lá de Cima.

sábado, 13 de novembro de 2010

A HISTÓRIA DO FÁBIO

No último texto disse que havia de contar a história da mãe do Fábio, e do Fábio.

O Fábio tinha 18 anos e andava a ser tratado no IPO desde os 10.

Conheci-o no dia em que foram lá as Justgirls, precisamente para cantarem para ele no dia no seu 18º aniversário. O Zé até tem uma foto com elas. A Acreditar é que organizou essa surpresa ao Fábio. Ele estava de cadeira de rodas e já bastante deformado.

Mais tarde soube que o estado dele se estava a agravar bastante, e houve fases em que lhe davam alta mas ele tinha que se deslocar ao IPO diariamente para receber tratamento e já ficava numa sala especial, não vinha para a enfermaria.

Quando eram dias de fim de semana tinha que receber o tratamento no piso de internamento. Num desses dias o Zé também estava a receber tratamento ambulatório. Porque sempre que ficava em isolamento, mesmo depois de ter alta tinha que ir uns dias seguidos tomar o resto do antibiótico por via intravenosa, até acabar. E estavamos na sala de espera do piso de internamento, à espera que chamassem. Foi quando vi o Fábio a passar no corredor, de cadeira de rodas, que a mãe empurrava. Estavam de saída e iam para o elevador. Poucos minutos depois vi-o em sentido contrário, a mãe a empurrar a cadeira a correr e ele todo caído na cadeira...pensei que ele tinha morrido naquele momento...Fiquei a tremer.

Minutos depois chamaram o Zé para um quarto onde lhe iam administrar o tratamento e quando entramos estava o Fábio deitado numa cama, completamente branco, de um branco inexplicável...Estavam a tentar que recuperasse os sentidos...a assim que conseguiram tentaram também voltar a sentá-lo na cadeira de rodas para que pudesse ir embora. Mas assim que o sentavam ele desmaiava outra vez...e foram assim alguma vezes seguidas...Uma dor de alma...O Zé a observar tudo, muito assustado, claro. E eu talvez mais assustada ainda...Falei com a mãe e ofereci-me para ajudar no que fosse preciso. A mãe estava esgotada, disse-me que já não sabia se preferia que ele tivesse alta, ou ficasse internado, porque tinham que vir na mesma para o IPO todos os dias e tinham que vir de táxi, lá de uma terra depois de Gaia, porque o marido não os podia trazer sempre, porque tinha de trabalhar.

Passadas algumas semanas, ou meses, poucos em todo o caso, um dia ao jantar, estou sózinha na mesa, como habitualmente, e a mãe do Fábio, que sempre se sentava com as outras mães, na tal mesa grande, pergunta-me se se pode sentar na minha mesa.

Disse que claro que sim. No fim da refeição perguntei como estava o filho. Ela disse que muito mal e que tinha sido internado nesse dia. Soube depois que foi para o quarto onde estava o Zé, um dos dois quartos previligiados, oferecidos por um clube qualquer, espécie de Rotary, e que eram os mais modernos, maiores e individuais, só para um menino e o seu acompanhante. Sempre que possível, reparava que punham o Zé num desses quartos. O que para nós era uma espécie de alegria.

E nesse dia, a meio da tarde, perguntaram-nos se não nos importavamos de mudar de quarto porque precisavam dele para um caso grave.

Estava a saber, pela mãe do Fábio, que tinha sido para ele.

Estavamos então no fim do jantar, e a mãe pergunta-me se eu não me importo de ir ver o Fábio. Fiquei surpreendida. Tinha a certeza que ela não sabia o que eu fazia. À execepção de duas mães, a quem tinha contado, por força das circunstâncias (ou seja, ambas me tinham perguntado se eu conhecia os livros da Alexandra Solnado) não tinha contado a mais ninguém no IPO e também quase que tenho a certeza que elas não contaram a nenhuma outra mãe.

Por isso, foi com muita surpresa que ouvi o pedido da mãe do Fábio. Com excepção daquele dia em que me ofereci para ajudar, se fosse preciso, nunca tinha falado com ela.

Disse que o visitaria com todo o gosto, e acompanhei-a ao quarto.

Fiquei em choque assim que entrei. O Fábio não devia pesar mais de 30 quilos, estava de um branco ainda mais indescritível, e os olhos estavam constantemente a revirarem-se completamente. Não falava, não sei se ouvia.

Naquele momento não me importei com o que a mãe pudesse pensar, e comecei a falar para ele e com a alma dele. Expliquei-lhe como se deixar ir para a Luz, e tentei que qualquer medo que ele pudesse ter fosse dissipado. Já o tinha tratado energéticamente à distância muitas vezes, por minha iniciativa e sem que ninguem soubesse, e acredito que foi por isso que de uma forma inconsciente (e digo inconsciente porque a senhora não sabia de certeza, em consciência, porque é que me estava a pedir para visitar o filho) dizia eu com certeza que foi por isso que a mãe dele me pediu para o ir visitar. Sem que nada o fizesse prever.

A mãe manteve-se calada o tempo todo e no fim teve uma conversa de circunstância sobre os pijamas... Ainda falei um bocadinho com ela mas não tenho a certeza de como ela entendeu o que lhe tentei explicar. Tentei mais que ficasse confortada, dentro do que é possível num caso destes.

Pouco tempo depois o Fábio partiu.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A MÃE DO ÂNGELO

Ainda hoje falei numa senhora que conheci no IPO. E vou contar a estória.

Ela era (e é, espero...) mãe de um menino que estava lá a receber tratamento.

Costumava vê-la e sobretudo ouvi-la, na sala de espera para as consultas. E ela falava tanto e tão alto que era impossível não reparar nela. Via-se que se dava bem com muitas das mães mas eu mantinha-me sempre um bocado à parte.

Embora os nossos filhos estivessem na mesma situação, eu normalmente não tinha muito tema de conversa com as outras mães, por incrível que possa parecer. E até ao jantar, que era no restaurante do IPO, e que ao jantar abria só para os pais dos meninos internados, eu sentava-me numa mesa sozinha enquanto as outra mães se juntavam todas numa grande mesa. Quando eram os maridos que lá estavam eles também se costumavam sentar à parte.

Às vezes uma ou outra mãe perguntava-me se podia sentar-se na minha mesa e eu concordava, claro. E a propósito hei-de contar aqui a história da mãe do Fábio, e do Fábio.

Mas voltando aquela mãe, de quem eu não me consigo lembrar do nome, infelizmente, e que num dia, ao entrarmos para o internamento, se dirige a nós, mais propriamente ao meu filho, e diz que nós vamos ficar no quarto do filho dela. Cada quarto tem duas camas para os meninos e outra duas camas, desmontáveis, para os acompanhantes, que são, na maioria dos casos, as mães.

Não fiquei muito satisfeita com a perspectiva de ficar no mesmo quarto, confesso. Aliás era sempre um motivo de ansiedade, saber com quem íamos partilhar o quarto. Podia fazer muita diferença em relação ao que se ia passar nos dias seguintes. E ficar com esta mãe fez-me logo pensar que não ia ter grande descanso se ela falasse tanto e tão alto como eu costumava observar. Ou seja, julguei-a de imediato. E levei com o retorno disso.

Porque na verdade, ela foi das melhores, ou melhor companhia de quarto que tive...

Era uma pessoa absolutamente pura e ingénua. Confiou em mim como se eu a conhecesse desde sempre. O filho dela, com cerca de 12 anos, creio eu, não reagia muito bem à presença dela e estava sempre a pedir-lhe para ela ir dar uma volta...e quando ela voltava, ele perguntava: "já?!" E isso deixava-a a morrer...é que ela nem sequer era chata com ele, apercebi-me que ela até era muito compreensiva e que o respeitava muito. E então ela desabafava comigo...como tinha "inveja" da minha relação com o meu filho...de como gostava que o filho a deixasse abraça-lo e beija-lo como o meu fazia...

E daí nasceu uma amizade. Não havia enfermeira e médico que não entrasse no quarto a quem ela não perguntasse imediatamente, antes de qualquer outra coisa: "Já viu com quem fiquei no quarto? Já viu a sorte que tive em ficar com esta mãe? Não podia ter melhor companhia. Nunca tive tanta sorte!" E de cada vez que ouvia isto (e foram mesmo muitas vezes, acreditem) o meu coração ficava pequenino...porque me lembrava do que juízo que tinha feito dela, no início. Ficava ainda mais embaraçada quando a ouvia dizer isto a outras mães, ainda por cima algumas já tinham partilhado o quarto com ela, e ela apressava-se a pedir-lhes desculpa, que também tinha gostado muito delas, mas que realmente eu era uma companhia espectacular...

Acho que nunca tinha recebido tantos elogios em tão pouco tempo...

Uma noite, acho que na segunda, ela estava ao telefone com o marido e mais uma vez lhe estava a contar a sorte que tinha em estar comigo e ele mandou-me um abraço...então ela posou o telefone e veio dar-me o abraço...o abraço que o marido tinha mandado...achei delicioso...

E nunca mais a esqueci. Ficou gravada no meu coração. E muitas vezes pedi desculpa à alma dela pelo julgamento que tinha feito dela. Mas a vida encarregou-se de me dar uma grande lição ao mostrar-me muito rápidamente que eu tinha feito um julgamento, e um julgamento completamente errado.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

COMO TUDO COMEÇOU

No Sábado fui visitar a minha Tia ao hospital S. João.
E percorri alguns dos corredores que percorria quando o Zé lá estava.
Quando as minhas primas me disseram para avisar quando estivesse na entrada para que elas viessem ter comigo e me dessem o cartão para poder subir ao quarto, logo senti um calafrio...lembrei-me de quando tinha que andar todos aqueles corredores...como o trajecto era longo para pediatria...como demorava a chegar junto de alguem que o vinha visitar...
E como tudo começou...
Desde o dia que entrou para a urgência, em como passamos a noite na urgência em observações sem que nos dissessem absolutamente nada...até decidirem pela operação urgente ao apêndice...em que vi tanta gente a entrar e a sair...tantos bébés aos gritos...e o Zé sempre completamente prostrado...passou a noite e o dia numa maca na sala de espera e eu sentada na cadeira ao lado.
Os meus pais e o pai dele, nos carros à porta do hospital.
A operação. Enfermeira disse-me que podia entrar enquanto ele estava a ser anestesiado. Tive a sensação de desmaio. Segurei-me. Saí e esperei cá fora.
Quando os médicos saíram logo um reconheceu o pai do Zé e dirigiu-se a ele. Tinha sido aluno dele no Liceu de Baltar. O Dr. Tiago. Vinha acompanhado de mais dois médicos. Um vim a conhecer mais tarde. Era o Dr. Nuno Farinha, o cirurgião oncológico pediátrico. Na altura não fazia ideia.
Ficou a ser seguido nos cuidados intensivos. Uma sala nova, bem decorada, com motivos infantis.
Dormia num cadeirão reclinável encostado à cama dele. Umas cortinas separavam-nos das outras camas, onde estavam outros meninos, com os pais ao lado. Enfermeiros atenciosos, sempre presentes. Após dois dias foi transferido para um quarto de cirurgia pediátrica.
Foi um choque. Quarto minúsculo com quatro camas. Enfermeira que nos recebeu forçou-o a manter-se sentado num cadeirão. Disse que as regalias tinham acabado. Que ali ia ter que se esforçar por recuparar rápidamente. O cadeirão era onde os pais dormiam, à vez. Uma noite para cada pai. Os outros dormiam em cadeiras.
Meninos com todo o tipo de maleitas. No corredor dessa ala andava sempre um menino de cerca de dois anos com as duas mãos e os dois braços, ao alto. O pai ao dar-lhe banho não tinha reparado que a àgua estava a ferver e queimou braços e mãos. Ele andava com eles ao alto porque era a forma que tinha de equilibrar o peso.
Habituar-me a partilhar uma casa de banho super minúscula com portas abertas para o corredor.
As noites silenciosas e escuras. Interrompidas pelos tratamentos que enfermeiros vinham fazer. Tratar de pensos. Colher sangue. Houve uma noite em que enfermeira picava e voltava a picar o Zá. Não estava a conseguir. Vinha outra, mais paciente e lá conseguia. O alívio quando o dia nascia. E voltavamos a sentir o calor naquele quarto,que mal nos deixava respirar.
Julho de 2008.
Quando tudo começou.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

SAIU-NOS UM PESO DE CIMA...


Saiu-nos um peso de cima: segundo os resultados da última ressonância que o Zé Miguel fez, está tudo bem. Foi-nos dito ontem pela médica dele. A alegria e o alívio são indiscritíveis. Rimos e choramos ao mesmo tempo. Abraçamo-nos. Relaxamos.

A médica disse até, que o osso parece estar menos furado (em resultado da radioterapia) do que estava na ressonância anterior. Como se estivesse a recuperar.

Sei que tenho de aprender a viver assim. Com o coração nas mãos. Como me disse o médico alemão, o Prof. Jurgens.

Isto ajuda-nos a ter outra perspectiva sobre a vida.
Da efemeridade.
De que o que é hoje pode não ser amanhã.
De que nada é garantido.
De que sozinhos não somos nada.
De que a vida é muito mais forte do que nós. E aprendemos a aliar-nos à vida. A deixar que ela nos guie.
Descobrimos como somos protegidos.
Descobrimos Quem nos protege e como nos protege.
Descobrimos que protecção não é o mesmo que imunidade.
Descobrimos como somos protegidos mesmo quando nos sentimos como se o mundo nos estivesse a cair em cima.
Descobrimos a nossa coragem.
Descobrimos que não é a força que nos salva, mas sim a coragem.
Descobrimos como a nossa fé se reforça quando sentimos essa protecção.
E descobrimos quem somos. E ao descobrir quem somos, descobrimos porque é que as coisas nos acontecem.
Descobrimos que as coisas que nos acontecem nos fazem ser ainda mais e melhor.
Mais do que alguma vez imaginamos ser.
Melhor do que alguma vez sonhamos ser.
E agradecemos por tudo o que nos acontece. Mesmo quando é o mundo a cair-nos em cima. Mesmo quando é o chão a sair-nos debaixo dos nossos pés.
Mas não é fácil. Não é mesmo nada fácil. E cansa. Sobretudo cansa quando pensamos que tinhamos saído duma e nos sentimos enfiados noutra.
Ontem depois de semanas de angústia, o alívio.
Hoje outra marretada na cabeça. As finanças à perna. Mesmo à bruta. Estava eu a chegar a Lisboa e a ver que tinha de dar a volta e regressar ao Porto.
Não enerva, não revolta, não nada.
Não tem sequer qualquer comparação com a saúde do meu filho.
Mas cansa.
Fragiliza-me.
Desgasta-me.
Para que não me esqueça de me manter humilde.
Para que não me esqueça de que nada é garantido.
Para que não me esqueça de que tudo pode acontecer.
Para que não me esqueça de que sozinha não posso nada.
Para que não me esqueça de manter no meu caminho.
Para que não me esqueça de que tenho muito para limar.
E agora a parte boa: é na fragilização, no desgaste, na humildade,que eu mais olho para dentro.
E que me sinto por dentro.
E que melhor sei quem eu sou.
E que mais sinto a protecção.
E que mais sinto Quem me protege.
E sentir Quem me protege não tem comparação com mais nada.
Tudo tem a parte boa. Tudo.
E o melhor ainda é que podemos ter a parte boa sem ter que levar marretadas na cabeça...eu é que custo a aprender...e quem não vai a bem vai a mal...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

OS DIAS DE ISOLAMENTO



Ainda ontem disse aqui que ia começar a escrever sobre as vivências no IPO, e hoje o meu amigo Paulo Ferreira publicou na página dele do FB a doação que conseguiu por parte de uma empresa de consolas e jogos para os quartos de isolamento da pediatria do IPO. Deu-me o mote para este texto: os dias de isolamento.

Quando os valores das análises desciam drásticamente, o Zé Miguel tinha que ficar em isolamento. Aconteceu várias vezes. Cerca de seis. Ou então quando fazia febre. Neste caso tinha que fazer análises para averiguar a causa da febre e o resultado demorava 5 dias, por isso até sabermos os resultados não podia sair.

No quarto do isolamento só podiam entrar os pais, médicos, enfermeiros e pessoal de limpeza. Sempre com máscaras, toucas, batas e calçado próprio. Ficavamos tão irreconhecíveis que um dia um médico confundiu o meu ex-marido comigo...A roupa do Zé Miguel ficava numa antecâmara e a nossa (dos pais) ficava num vestiário junto a uma casa de banho do corredor. Tinhamos que tomar banho e vestirmo-nos nessa casa de banho que era uma para os pais de cerca de 10 meninos. Nas "horas de ponta" (peq.almoço, almoço e jantar) ficavamos em fila, à espera da nossa vez.

Esses dias eram um suplício para o Zé, assim como para todos os outros q passavam por isso. Ao terceiro dia já começava a ser difícil gerir aquela ansiedade toda. Depois surgia o medo de ter que estar mais do que os cinco dias mínimos...

Havia muito meninos que passavam longas fases em isolamento. Um desgaste enorme para eles e para os pais. Lembro-me da Belinha, com cerca de dois anos, que estava práticamente sempre em isolamento. Quando tinha ir para a fila para trocar de roupa quase sempre me encontrava com a mãe dela, que no último ano só tinha ido uma vez a casa. Foi nesse vestiário que a mãe dela me disse que os médicos a estavam a preparar para o pouco tempo de vida da filha. Mas ela não queria acreditar. Depois da filha partir, ela continuava a ir lá frequentemente, como se aquela fosse a casa dela.

Por duas ou três vezes que o Zé teve que ser internado devido a febre. E a febre surgia de madrugada. Tinhamos que aguardar duas horas, para ver se baixava. Ligavamos para o IPO para ficarem de sobreaviso. Se não baixasse tinhamos que ir directos. Era nessas alturas que ele ficava mais aflito. Pedia-me para lha fazer uma limpeza energética. Pedia constantemente. Ficava práticamente em pânico. De uma das vezes a febre baixou de tal forma que não foi preciso ir. Das outras vezes cheguei lá com ele às cinco da manhã. Tudo escuro. Tudo em silêncio. Começar logo por fazer as análises antes de ir para o quarto. Nunca o via tão frágil como quando se sentia ameaçado pelo isolamento.

Quando se aproximava o dia em que provavelmente teria alta começava o assédio a médicos e enfermeiras. Prestava-se a todos os sacrificios só para que o tirassem do isolamento. Prometia tudo. Perito na arte da sedução, ninguém lhe ficava indiferente e as próprias enfermeiras ficavam eufóricas quando lhe comunicavam a alta porque ele transfigurava-se. Ganhava vida. Lembro-me tão bem como ficavamos felizes só por não continuarmos no isolamento. Às vezes nem podiamos vir logo para casa mas pelo menos podiamos ir para os quartos normais, e ele já podia passear no corredor, já podia ir para a sala de jogos. Largavamos as máscaras e batas.

Como tudo é relativo!! Como tudo depende da perspectiva. Como mudar de quarto dentro do IPO pode ser uma alegria...!!

Foi num desses períodos de isolamento,que um dia, quando estavamos os dois a ver um dos programas da manhã na televisão, ele sempre a chamar-me a atenção para eu olhar para o ecrã, e de repente vejo a passar em rodapé esta frase: "Mamã Cristina tu és a razão do meu viver amo-te para sempre Feliz Natal querida."

Foi muito emocionante. Pedi-lhe que me explicasse como se fazia e entretinhamo-nos a mandar mensagens de amor um ao outro através da televisão...

O amor. Sempre o amor. O amor da minha vida.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

SOBRE O ZÉ MIGUEL


O Zé Miguel fez a ressonância na passada sexta feira. O resultado só o vamos saber no dia 22 deste mês, na consulta do IPO.

Entretanto vivemos com o coração nas mãos.

Vou começar a escrever sobre o que tenho vivido no IPO. São muitas as experiências lá vividas e sentia vontade de contar muitas delas, mas no fundo estava a evitar...a adiar...porque falar fazia-me reviver tudo, e o que eu mais queria era distância...

Mas a vida está a ensinar-me que não adianta eu querer fugir...a vida é como é, não como nós queremos. E se senti que por algum motivo (que ainda não conheço, mas que desconfio possa ser para fazer também auto terapia, ou preparar-me para o que me pode vir pela frente) era importante escrever, pois vou arriscar. Porque por outro lado, também achava que era um tema que não interessa a muita gente, por ser tão duro.

Mas como é por mim que devo fazê-lo (a parte da auto terapia deve ser para me fazer ter consciência de mais situações a que com certeza não dei a importância devida, porque o que me tem salvo é a terapia que as minhas colegas me têm feito) vou meter mãos à obra e enfrentar este desafio.

Por isso o melhor é não avisar mais os amigos através de email, dos textos que aqui escrevo, e quem quiser vai espreitando.

Adoro-vos meus amigos.

Beijos

Olinda Cris

sexta-feira, 7 de maio de 2010

LUGAR HORRENDO

Estou arrasada. Hoje o Zé teve consultas no IPO. Os exames que fez há três semanas demonstram uma alteração no osso da bacia. A médica dele acha que tanto pode ser uma consequência da radioterapia que faz como pode ser outra coisa. Vai ter que fazer uma ressonância para esclarecer. Que foi marcada só para 02 de Junho.

É como se tivesse levado com uma pancada na cabeça. E hoje o IPO estava mais deprimente do que nunca. Por causa de umas obras estava mais escuro, mais barulhento. Parecia que estava tudo mais negro.

Já ia com o coração apertado. Ao acordar tinha tirado uma mensagem do Livro da Luz. Podendo sair qualquer uma das 272 mensagens, saiu exatamente esta, com o título "Desconforto" - "É no maior desconforto que encontras a tua maior habilidade. É nesse lugar horrendo, de desconforto absoluto que encontras a tua tolerância , paciência e disponibilidade. Quando escolhes aceitar o desconforto, escolhes também ser tolerante. Escolhes ser paciente. Sabes que vai durar - nem que seja um bocado - e aceitas passar por isso. E aprender. E limpar. E viver. Vivenciar. E depois de vivido o drama, depois de derramado o sangue, poderás saber que sobreviveste, e a partir daí regenerou-se por completo a tua relação com o medo. Jesus."

É mesmo o termo: lugar horrendo. Horrendo o IPO. Horrendo o interior do nosso peito: apertado, pesado e escuro. Cheio de medo e de angústia. Cheio de memória.

Há dias quando o Zé foi fazer os exames, escrevi na minha página do Facebook que tinhamos passado o dia na casa dos horrores. Pelos vistos usei o termo correcto. E escrevi também que apesar de tudo, foi bom lá voltar, quase como visitantes, e encontrar pessoas que se tornaram nossas amigas. Como as enfermeiras e os médicos.

Tenho estado no meu quarto. A deixar doer. A sensação que tenho é de arraso. Como se tivesse sido demolida. E nesses momentos nada em mim funciona. Só a respiração. Só o sentir do coração. Muito apertado. Muito dorido. Só sinto o coração e as lágrimas a caírem. Não consigo nem tenho vontade de fazer mais nada. Nada. Nem sequer de querer sair desse estado. Não consigo nem tenho vontade de pensar em nada. Nada. Não consigo fazer meditação. Não consigo sentir a Luz. Peço ajuda com a minha intenção. Peço Luz com a minha intenção. E fico. É só o que está ao meu alcance neste momento. Chorar. Aceitar que agora é o momento de sentir. Só. Ficar a sentir o meu coração. A sensação de devastação. Sei que a Luz está comigo. Só porque tenho fé acredito que está. Mas não sinto. Neste momento não sinto mais nada além de devastação.

Tiro uma mensagem do Livro. E sai a mensagem com este título: "Eu Amo-te." Foi o suficiente. O suficiente para sentir o quentinho dentro do peito. O suficiente para me sentir grata e acompanhada. E rendida. E para começar a participar no tratamento da minha energia.

E lembrei-me de um dia no IPO quando o Zé estava internado. Estava a ser um dia muito dificil. Especialmente dificil. E a madrinha do Zé até foi lá para ajudar. O Zé estava a receber uma dose fortíssima de quimio. Tem que se ter um cuidado extremo em todo esse processo. Mas de repente o tudo de quimio salta do cateter e começa a brotar sangue do cateter e a brotar quimio do tubo que a conduzia até ao cateter. Tudo a brotar como em jactos. Era "sangue a ser derramado" para o chão e sangue a circular pelos tubos por onde não podia circular...E quimio a espalhar-se. O que também não podia acontecer. Tudo a acontecer em segundos. Desatei aos saltos em pânico e fui a correr chamar uma enfermeira. Ainda pensei que fosse eu que estivesse a reagir pior por causa dos meus traumas (chegava a desmaiar quando me estavam a tirar sangue para análises) mas a enfermeira também ficou quase em pânico. Uma urgência. Vieram outras enfermeiras a correr para ajudar, veio médico e tudo acabou por normalizar. Limpou-se tudo. Respiramos fundo. O Zé sossegou e começou a dormitar. O choque foi grande. Depois de um dia desgastante aquilo foi a gota de água. Já não aguentavamos mais. Eram 22h, as visitas tinham que sair. A madrinha do Zé despediu-se de mim a chorar e foi-se embora a chorar pelo corredor fora. Eu deitei-me e comecei a chorar. Sentia-me sozinha. Esgotada. Fraca. Abandonada. Peguei no Livro da Luz e tirei uma mensagem. O título: "Eu estou aqui". Desatei num pranto ainda maior. Afinal Ele estava ali. Eu não estava sozinha nem nunca tinha estado...O texto da mensagem: "Eu estou contigo, sempre. A cada minuto do teu dia...das tuas noites. Todos aqueles tempos dificeis em que pensas que estás sozinha. Não. Eu estou aqui. Sempre. Dentro do teu coração a envolver-te com esta energia macia e branca. Com este amor. Todos os tempos sombrios são tempos de solidão. São tempos de aprendizagem. E eu estou aqui, sempre ao pé de ti, a guiar-te através da tua intuição. Tu recebes a minha orientação e transmites o que recebes de mim. É esta a nossa comunhão. Eu estou aqui. Sempre estive. E saber que acreditas nisto iria trazer-me muita paz. Jesus".

E eu fiquei em paz. E senti-me profundamente grata. E imeditamente Lhe agradeci. E rendi-me. Totalmente. Mais uma vez. Aquela mensagem salvou-me. E percebi que este Livro salva vidas. E no dia seguinte telefonei à Alexandra a contar e a agradecer. Por tanto.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

NÃO PENSAVA CRIAR UM BLOG


Olá amigos.

Não pensava ter um blog tão cedo mas hoje a Erica convenceu-me, também porque a Tati já tinha insistido comigo para o criar. Acabei por achar que era uma boa opção porque gosto de escrever para os meus amigos e contar-lhes o que se vai passando comigo.

Muito menos pensava que iria começar a escrever com o estado de espírito com que estou agora.

Passei um serão muito agradável a festejar o aniversário da Tati e cheguei a casa muito bem disposta. Como sempre que estou com ela, ri-me imenso. Quando cheguei liguei o pc porque estou sem sono e à procura de um video da Tati de bicicleta para colocar no facebook dei de caras com umas fotos do Zé Miguel quando estava internado no IPO.

Mais magro cerca de 30kg e enormes olheiras. Tive um choque. Ainda estou em choque. Pensei que ultimamente me tenho preocupado bastante com o excesso de peso dele. Que essa preocupação foi a que a minha mãe sempre teve comigo ao longo da vida. Que me azucrinou por causa disso. Que ainda não me curei disso. E que estou a repetir o que ela fez comigo, embora a outra escala, com o meu filho. Sempre escudada na saúde dele. Mas afinal essa tb era uma das preocupações dela. E nem por isso deixou de me fazer feridas que permanecem até hoje. E quando vi o Zé nas fotos naquele estado pensei em como ele está lindo gordinho!!!! E em como é milhões, bliões, triliões de vezes, melhor ele estar gordinho do que doente... Meu Deus, como nos esquecemos tão depressa do que é mais importante. Tão depressa. Não me quero esquecer. Não me devo esquecer. Não me posso esquecer. A vida não brinca.

Ainda esta segunda feira tive a noção da quantidade de coisas de que já me tinha esquecido. Fui com o Zé ao IPO à consulta de rotina e fazer exames. Assim que entramos na enfermaria para fazer análises, dei de caras com um rapaz, já de barba, que nunca o tinha visto, e imensas peladas na cabeça. Estava cor de cera. Senti que ele devia estar muito mal e fiquei logo com os olhos cheios de àgua e a pedir com a minha intenção ajuda para ele. Passado um pouco ele começou a contorcer-se com dores e percebi que as enfermeiras lhe pediam paciência para esperar até a medicação fazer efeito. Pareceu-me que talvez ele tivesse tido uma reincidência. Acabamos por ter q passar quase todo o dia lá, e andei o tempo todo com os olhos cheios de lágrimas. Tantos, tantos, meninos novos...parece uma epedemia....A 1ª vez que tive essa impressão de que o cancro parece uma epedemia foi quando num dia em que o Zé estava internado, deu entrada no quarto ao lado a filha de 3 meses da psicóloga que chegou a atender o Zé lá no IPO. Tinha deixado de a ver quando entrou de baixa perto da data do parto e voltei a vê-la nesse dia, já com a bébé de 3 meses, mas tb para ser tratada a um cancro. A sensação com q fiquei foi q parecia que os pacientes dela tinham pegado à bébé a doença quando ainda estava na barriga...

Custou-me mais assistir a tudo isso na 2ª feira, porque como já lá não ia desde Setembro parecia que me estava a desligar dessa realidade...mas é bom que não me esqueça do que a vida me quis ensinar...para meu bem...e mesmo assim, nunca se sabe...essa foi talvez a principal lição: nunca se sabe.

E agora vou chorar que tenho o peito a arrebentar...

Mil beijos

Olinda Cris