terça-feira, 12 de julho de 2011

SOZINHA

De manhã, a tomar café na esplanada do McDonalds vejo as dezenas de meninos que chegam nas camionetas das escolas à praia. E vejo que chega um grupo só de meninos deficientes. Alguns de cadeira de rodas. E lembro-me de quando tive o diagnóstico do cancro do meu filho. E de como um dia fui para a internet investigar sobre o sarcoma de Ewing. Ainda nem sequer sabia muito bem como se escrevia. Irónicamente a primeira página que abri era do blog dos pais de um menino que aparecia com a perna amputada. E que tinha morrido na véspera. E daí em diante vivi com esse medo. E com o medo que acontecesse tudo o que lá era descrito. E ao lembrar-me choro. E choro pelos meninos que vejo passar. E pelos jovens com cerca de 20 anos que os vão a ajudar. Alguns caminham mas mal, e vão amparados pelos braços.

Ao fim da tarde, já à vinda do trabalho, vou ao centro histórico de Oeiras, ao supermercado, que é mais perto da minha casa. Já vou carregada com coisas que tinha trazido do Porto e ainda estavam no consultório. Levo 2 mochilas às costas e um tapete enrolado debaixo do braço. E saio do supermercado ainda mais carregada, com mais um saco. Uns metros abaixo páro para ver uma montra e sinto que alguem está a falar comigo. Eu não ouvia porque estava com os phones colocados. Era um senhor, velhinho, aparentava ter muito mais que 80 anos. A fumar a sua cigarrilha pergunta se eu não quero ajuda. Fico sensibilzada...como é que aquele senhor tão frágil se oferece para ajudar a carregar os sacos...claro que recuso e agradeço-lhe muito...ele insiste porque diz que me vê tão carregada...mochilas...sacos...tapete...eu continuo a recusar e a agradecer. Despeço-me...tocada pela sua elegância e gentileza...fiquei realmente impressionada.

Atravesso o jardim a caminho de minha casa. Deste jardim não tenho fotografias mas é realmente bonito. Tão bonito que páro a olhar em volta. E sinto-me sozinha. Tão carregada. E sozinha. Com imensas saudades do meu filho que neste fim de semana mal vi. E de repente lembro-me de uma vez a Alexandra me ter chamado alma guerreira. Nunca mais me tinha lembrado disso. E neste momento foi isso que senti. Que estava a fazer tantas coisas difíceis para mim. Mas ao mesmo tempo rodeada de tantas coisas boas...

No Sábado passado ao mostrar à minha mãe o vídeo que tinha feito com imagens do lugar onde moro, a minha mãe disse-me que agora eu tenho tempo para fazer isso tudo porque vivo para mim. É claro que vivo também para o meu filho. Mas realmente desde há uns anos para cá vivo pela primeira vez a minha vida. Aliás foi também por tanto viver para o meu filho que quase o perdi. Depois do divórcio fiz dele o centro da minha vida. Vivia para todos menos para mim. E fico a pensar como é que é possível viver-se tantos anos para os outros...se a vida é nossa, se nos foi dada para a vivermos. É óptimo viver com os outros. Mas não para os outros. De todos para quem vivia fui sendo afastada. Até ficar só comigo. E não ter mais para onde fugir. E foi o melhor que me podia ter acontecido.

Aprendi à bruta...a perder quase tudo...a ser posta a viver sozinha...a fazer quase tudo sozinha...mas só assim fui descobrindo quem eu sou...e a gostar do que descubro...e a desfrutar disso...e a aprender a ser feliz...e afinal não precisava de quase nada do que tinha...para ser feliz. É maravilhoso amar profundamente o meu filho e deixá-lo ter a vida dele. E ter a minha. E ter a nossa.

Atravesso a rua e entro noutro jardim, o que fica em frente à minha casa. E nesse momento lembro-me da primeira vez que entrei neste jardim. Em que pensei na sorte de quem vivia perto deste lugar e que além de poder vir passear no jardim tinha a praia perto. E quando pensei isso não podia imaginar que alguns metros mais à frente estava a casa que havia de alugar nesse mesmo dia...a minha casinha de bonecas, como a minha mãe lhe chama.

Chego a casa, pouso a tralha toda, e mudo de roupa para ir fazer uma caminhada pelo passeio marítimo. Ao sair de casa encontro a Filipa e o Carlos. Ela surpreendeu-se com o meu outfit..de calçõezinhos e sapatilhas (gosto de dizer à moda do Porto, em vez de ténis). Vindo dela é um grande elogio para mim, porque a Filipa talvez seja a pessoa que eu conheço mais original a vestir. Tão original na sua forma de estar que vinha com um daqueles brinquedos de fazer bolinhas de sabão a atirar bolinhas para o ar...encheu-me de bolinhas e rimos...rimos...

Já na caminhada páro e sento-me junto às rochas. As mesmas rochas da praia que aparecem no vídeo que fiz. E de repente começa a tocar no IPOD a música que coloquei no vídeo, do Moby...e parece que estou no vídeo...e sinto-me no Céu...e sou puxada para os braços do meu Eu Superior...sinto-me como se estivesse a cair num grande colchão de água...e ao mesmo tempo abraçada...protegida...

Venho embora. Cruzo-me com mãe e filha nórdicas, cabelo quase branco de tão louro...como é possível mãe e filha serem tão bonitas?!...E como é possível a menina que parecia ter só uns 3 aninhos patinar como uma profissional?!...

À minha frente vai uma senhora a empurrar um carrinho de bebé...penso que seja a mãe mas depois ao ver a cara penso que afinal é a avó. E penso mais. Penso que a mãe do bebé será outra senhora que vai ao lado, porque essa sim aparenta pelo estilo ser mais jovem. Mas engano-me porque quando lhe vejo a cara parece ser a bisavó...e quase travo o passo com o choque...Como sempre, as aparências iludem.

Chego a casa e faço bricolage no chão da casa de banho. Mais uma coisa que faço sozinha. O meu afilhado João e a mulher, Mariana, iriam orgulhar-se pela caixa de ferramentas que me deram...E forro o chão de roxo. As paredes estão pintadas de cima a baixo de lilás clarinho. Quando aluguei a casa e perguntei à minha senhoria se podia pintar as paredes da casa de banho de lilás ela disse que sim. Deve ter-se esquecido. Porque quando depois lhe disse que a casa de banho tinha ficado linda de lilás ela exclamou aterrorizada: Ai Meu Deus!!!! Não me diga que fez isso!!!...E quis ver. Mas gostou. Tanto que queria pintar as dela de igual.

Na minha sala também tenho dois quadros que me ofereceram e são lilás. Os dois foram-me oferecidos e pintados propositadamente para mim. Por pessoas diferentes. Um, por uma amiga minha pintora, a Isabel Luz (quem conhece o consultório é a autora do biombo que está na entrada) e o outro pela minha Tia Olga. Há semanas atrás um amigo meu quando entrou na minha sala perguntou se tinha sido eu a pintá-los. Porque curiosamente os dois quadros têm exactamente a mesma cor...

4 comentários:

* disse...

:) minha linda.. o mais giro foi o Carlos dizer: " aquela sra parece mesmo a Olinda" e quando te vejo no teu fato de caminhada ainda parei um pouco a pensar ... uma leoa sem estar produzida faz-nos sempre pensar... :) está algo errado neste quadro :D

Lurdes disse...

Mais uma historia da tua vida. Uma história real. Que bonito o Sr. querer ajudar-te... E já me fartei de rir a imaginar o teu fato de caminhada... mais a Filipa a fazer bolinhas de sabão, os carneiros são assim...Impulsivos...
Os quadros, a cor, etc. Que linda esta solidão, porque é esta solidão que te fez ser tu própria. Ficaste mais acompanhada contigo.
E a caixa de ferramentas lembra-me o Freedom, e a cereja.
:) Um abraço com muitas bolinhas coloridas de sabão...
Quanto à cor dos quadros "Surprise"... LOL
Deixo este video para a Filipa, Carlos e para ti... (não é metálica mas è quase!!!)
http://www.youtube.com/watch?v=ZWVdaJVW5js
E por aprender a ser feliz um video:
http://www.youtube.com/watch?v=a_dsM3x5_vo&playnext=1&list=PL8677C97F6D0BDF30

Olinda Cristina disse...

Filipa, o mais giro foi ver a vossa felicidade...e a leoa, com a vida, vai perdendo a pose..:)))))) Beijos grandes para os dois.

Olinda Cristina disse...

Lurdes, entres os teus muitos talentos, tens mesmo o de encontrar vídeos a propósito de tudo...o teu Nobel é bem merecido...espectacular. Outro abraço com muitas bolinhas coloridas de sabão...