Fecho os olhos para tentar descrever como me sinto, e talvez o mais próximo seja ter toneladas de peso dentro do meu peito. E um aperto no estômago. E uma dificuldade em respirar. E uma vontade de chorar. (Já chorei mas não chorei tudo).
Passei todo o dia com este aperto. Tinha ido com o meu filho a uma consulta por causa da tosse persistente dele. Tem uma faringite. O alívio que se sente quando a médica diz que pulmões estão limpos e que tem uma faringite...Enquanto esperavamos ser atendidos pensava na vida. Na minha vida. E no difícil que é viver com o aperto no peito. E o aperto continuou.
Até que, há pouco, depois do jantar a minha Mãe estava a fazer zapping na televisão e reparei em como passou numa imagem que tentou mudar rápidamente. Perguntei-lhe porquê. Porque já tinha visto aquela reportagem. Perguntei sobre o que era. Sobre um rapazinho que tinha pedido a eutanásia. Disse-lhe que queria ver. Andava e desandava com o comando como se já não encontrasse o canal. Pedi-lhe o comando para procurar eu. Era na TVI24H e a imagem que apanhei foi a de uns pais a despedirem-se do filho a quem ia ser administrada a injecção letal. Senti-me em choque. Perguntei à minha Mãe se sabia porque motivo o rapaz tinha pedido a eutanásia. Porque tinha uma doença em estado terminal. E não disse mais nada.
A continuação da reportagem foi altamente chocante para mim. A comoção que sentia era esmagadora. Como se à medida que o médico explicava ao Bart como é que a injecção ia actuar, eu própria estivesse também a paralizar.
Vim à internet procurar informação sobre o Bart. Não sabia mais nada além do nome. Com o nome e a palavra eutanásia, encontrei-o. Bart Verbeeck.
Tinha um Sarcoma de Ewing. E 22 anos.
...
A reportagem terminou com a mensagem que ele queria passar, e que é a de que as pessoas devem ser felizes com o que têm e não infelizes com o que não têm. E que devem beber Coca-Cola todos os dias, se lhes apetecer, e comer hamburguer, porque nunca sabem se não será o último dia em que podem fazer isso.

6 comentários:
Comovente...
Forte...
Deixou-me estranha...
Sem saber mais que dizer...
A não ser que a vida é uma dádiva e cada dia deveria ser uma felicidade... Agradecer o estarmos aqui... A ler... A viver... A amar... Mesmo com apertos no peito...
Poderia dar alguma opinião, nao vou dar... Poderia sem querer ou querendo (nao importa) cair um julgamento.
Julgo-me de qualquer forma, incondicionalmente feliz por poder receber mais uma mensagem tua. Desconhecia a noticia (nao vejo noticias há um ano e meio). E as melhoras do Zé Miguel.
Um abraço do tamanho do universo.
Lurdes Jóia
Sei que posso contar sempre contigo, Lurdes, e isso é verdadeiramente importante. Obrigada, amiga. Outro abraço do tamanho do do Universo!
Forte demais...
Como dizes:
"...A reportagem terminou com a mensagem que ele queria passar, e que é a de que as pessoas devem ser felizes com o que têm e não infelizes com o que não têm. E que devem beber Coca-Cola todos os dias, se lhes apetecer, e comer hamburguer, porque nunca sabem se não será o último dia em que podem fazer isso."
é realmente uma verdade... mas é tão dificil agir assim, até só o pensar às vezes é dificil.
Cada vez mais o jornalismo que se faz que vemos ocasionalmente, ou não, na tv, toca-nos mais. lembra-me outrora de alguns momentos dificeis de assistir que, invariavelmente mudava de canal...
Agora também quero assistir para me emocionar...
Beijinho para ti Olinda.
E que o Zé diga adeus à faringite.
Verdade, Pedro. Esta reportagem ter-me-ia passado ao lado se não tivesse reparado na preocupação da minha Mãe para eu não visse. Há coisas de que não podemos /devemos fugir. São para nós. Mas foi realmente das reportagens mais chocantes que vi na vida. Extraordinariamente difícil para mim.
Beijinhos para ti, Pedro, e obrigada pela tua presença aqui. :))
Vi esta mesma reportagem hoje! E tenho que lhe dizer que o Bart não recorreu á eutanásia, como ele disse na reportagem era contra a eutanásia, ele recorreu foi á sedação paliativa.
O que é a sedação paliativa:
O conceito de sedação paliativa diz respeito à prática médica de induzir sono no paciente de modo a controlar sintomas desagradáveis, como por exemplo, sintomas refractários aos tratamentos preconizados. Existem diferentes tipos de sedação: profunda, contínua ou temporária. Uma sedação suave que acompanhe e potencie os analgésicos, mantendo a consciência do paciente, é recomendável.
Este tratamento distingue-se de eutanásia pois não visa a morte do paciente. No entanto, alguns pacientes sedados podem falecer no decurso do tratamento. Justifica-se esta opção terapêutica em termos do conceito de qualidade de vida. O que se pretende é aliviar o sofrimento.
Obrigada pelo esclarecimento Guida. Só vi o final da reportagem, mas nas imagens que vi tanto o Bart como os familiares sabiam que ele ia morrer na sequência da medicação que lhe ia ser administrada,o que aconteceu passados 3 dias.
Seja como for são questões delicadas, e respeito em absoluto as decisões que estes doentes tomem, sejam elas quais forem.
Beijinho :)
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