sexta-feira, 22 de abril de 2011

O TEXTO QUE ESCREVI NO DIA EM QUE FEZ UM ANO QUE O MEU FILHO TEVE O ACIDENTE

02 de Julho de 2009

Hoje faz um ano que o Zé Miguel teve o acidente de bicicleta.

Comecei o dia com uma meditação. Recordei todos os momentos e imagens mais marcantes deste ano. Parece que hoje tive mais noção de como o Zé Miguel tem sido um herói.

Recordei o momento em que me deram a noticia do acidente, o momento em que ia a caminho do hospital e telefonei ao meu pai que não me conseguia responder se era grave ou não...só chorava...(porque, disse-me mais tarde, quando o viu pensou que ele estava morto)...o momento em que cheguei ao hospital e não me deixaram aproximar dele, que estava a ser levado numa maca pelos bombeiros. Do choro desesperado em desabei no meio do corredor com gente à volta a olhar para mim em silêncio.

Os bombeiros acabaram por me vir chamar, estava todo imobilizado com talas, com sangue na cara, olhos fechados, sobrancelha caída, orelha caida, sangue nas pernas, abriu os olhos e disse: “Mãe, amo-te muito” e voltou a fechar os olhos, parecia inconsciente...

Nesse dia começou um calvário.

As suturações das feridas em que suplicava que parassem, que já não aguentava mais. Os curativos diários, o ter que arrancar a pele das costas e ombro, porque no primeiro curativo lhe tinham colado algodão nas feridas.

As dores insuportáveis, as febres, os dois dias seguintes ao acidente, na urgência do hospital, em observação. O não descobrirem o que ele tinha. O desconfiarem que era um hematoma abdominal, consequente do acidente. Os exames. As vozes dos médicos que baixavam quando me aproximava. O diagnóstico de apendicite aguda ao fim do segundo dia e a decisão por uma cirurgia imediata, da máxima urgência.

Os dias a passarem sem poder ter alta. Mas sempre convencidos que tinha sido apenas uma apendicite aguda, que estava tão adiantada que rebentou e médicos tiveram que limpar tudo. Amostra foi para análise, mas de certeza que era só apendicite com hematoma, diziam os médicos e enfermeiros. A cicatriz que não cicatrizava, os curativos com muita morfina em que pedia que me afastasse porque a minha cara de terror ainda o assustava mais.

O calor insuportável no quarto mínimo do hospital com quatros camas e um cadeirão. Passaram-se assim vinte dias.

Sempre amável e brincalhão com os enfermeiros e médicos, mas sobretudo com as enfermeiras.

O dia em que chegaram dois médicos que queriam falar com os pais, como estava só eu iam falar comigo, e numa mesa redonda do gabinete dos médicos, disseram-me que o meu filho tinha uma cancro maligno. Um sarcoma de Ewing. Ao principio não percebi o nome nem quis perceber. Aliás não ouvi a maior parte do que disseram. Tinha percebido o principal. Que era um cancro extremamente raro e muito agressivo. Fiz duas ou três perguntas. Pedi para me deixarem a sós. Algum tempo depois entraram cerca de cinco enfermeiras com um copo de água e açucar, ampararam-me no choro. Não as vou esquecer. Insistiram para que tomasse medicação. Recusei.

Fui contar ao Zé Miguel. Ficou triste. Não percebia bem o significado do que estava a acontecer.

Já tinha ligado ao pai, quando saí com os médicos, que veio a correr.

Lembro-me de nesse dia estar a caminhar no corredor do hospital e sentir Jesus ao meu lado. Afinal não estava sozinha. E foi sempre a Sua presença que mais me ajudou até hoje.

Havia que decidir, continuar no S.João ou ir para o IPO.

Pedi que deixassem o Zé Miguel decidir. Foi conhecer as instalações de oncologia pediàtrica no S. João e assim que viu os cubiculos em que mal cabia uma cama de solteiro, em que iria ficar nos períodos de isolamento, decidiu que iria para o IPO.

No dia 28 de Julho começou a quimioterapia no IPO.

E começaram os internamentos, de vinte e um em vinte e um dias. Os vómitos, as aftas, os dias sem comer, as infecções, os períodos de isolamento.

Estive hoje a contar e neste último ano esteve cerca de cinquenta e cinco dias sem comer, só de uma vez esteve doze dias seguidos sem comer. Emagreceu mais de vinte quilos, já os recuperou.

Nos internamentos sempre amoroso, sempre terno, queria que lhe fizesse festas e massagens e fazia-me miminhos e repetia o quanto me amava. Ao longo deste ano as mães dos sucessivos meninos que ficavam na cama ao lado diziam-me da “inveja” que sentiam porque os filhos não deixavam que lhes tocasse e as tratavam mal (e era mesmo verdade, por muito amorosos que fossem, descarregavam sempre nas mães).

Sempre metediço com as enfermeiras elas “derretiam-se” com as lisonjas dele e no dia que tinha alta agarrava-se a elas a agradecer e a dizer o quanto gostava delas.

Ficavam todas com as lágrimas nos olhos.

As noites em casa, passadas em claro, a vermos o “Miami Ink” e o esquadrão da moda.
Sempre juntos. Sempre agarrados um ao outro.

Terminou há duas semanas as catorze sessões de quimio, a mais agressiva que há, com a duração de cinco dias cada uma, que estavam previstas. No último dia teve um ataque de pânico.

Não foi a primeira vez. Houve um dia em que achava que não ia conseguir aguentar a quimio, os enjoos, os vómitos. Recusou-se a ser internado. Fechou-se na casa de banho. Ameaçou fugir. Tentou. Corri atrás dele pelos corredores fora. O pai não estava. Acabou por vir um tio ajudar. Após cinco horas aceitou subir para o internamento. Um médico a ampará-lo de cada lado. Ao entrar no elevador atirou-se para o chão do corredor em crise convulsiva de choro. Chegámos ao 12º andar e não saía do elevador, continuava a chorar convulsivamente.

Ainda hoje vêm ter comigo pesssoas que não conhecia, mas que assistiram à cena. Vêm perguntar como é que ele está. Uma funcionária fez amizade comigo, desde aí.

As enfermeiras, impotentes, diziam que apesar de tudo tinha muita sorte, porque ele é muito amoroso. Que já tinham assistido a cenas dessas com outros adolescentes mas que eram muito violentos.

Agora não sabemos o que nos aguarda.

Talvez uma sessão de quimio mais forte e autotransplante de medula óssea. Terá que estar um mês em isolamento no IPO. Talvez no mês de Agosto. Mas ele tem esperança de não ter que fazer. Vamos deixá-lo relaxar o mais possível até chegarmos perto da data.

Hoje, na minha meditação, mais do que a minha dor, tive consciência do tamanho do amor do meu filho, do heroísmo dele. De como passou por tudo isto com uma coragem, que duvido que eu tivesse.

Assistir à dor dele sem quase nada poder fazer, foi a minha grande dor. Brutal. Esmagadora.

Mas ele, para além da dor emocional, do medo, da angústia, do cansaço, do desânimo, teve que lidar com uma enorme dor física, muitas vezes insuportável, que lhe fez dizer mais do que uma vez: “Desisto. Não aguento mais.”

Teria imenso para contar aqui, tantos acontecimentos que ajudariam a ter melhor ideia de tudo o que tem passado, de tudo o que se vive no IPO, de todas as famílias que conhecemos, de todos os médicos e enfermeiras que nos tocaram tão profundamente. De tantos meninos cheios de coragem. De tantos que vimos partir…

De toda a nossa família, amigos e conhecidos que nos ajudaram a chegar até aqui. Sei que não tenho palavras para agradecer toda a ajuda mas sei que todos vão saber e sentir o quanto lhes estou grata.

De tantas emoções boas que vivemos, tantos momentos de intensa felicidade. De tanto amor que recebemos.

Da fé que se redobrou. Da gratidão permanente ao Céu.

Da certeza de que nunca, nunca, estamos sozinhos, aconteça o que acontecer.

Mas hoje queria mesmo é contar como amo o meu filho, de como o admiro, do exemplo de coragem e amor que ele tem sido para mim.

Queria contar como o meu filho é um Herói. E o grande amor da minha vida.

7 comentários:

Olinda Cristina disse...

Estava agora a reler este texto e a chorar...choro sempre que o leio...e de repente tive uma revelação...apesar de tudo o que já sei sobre a importância e necessidade de ter passado por isto, agora tive um insight sobre a importância de voltar a passar nesta vida, pela impotência de assitir a uma dor física tão extrema,de alguem que amo tanto, sem nada puder fazer...E sobretudo por isso tinha que ser publicada hoje. Sexta Feira Santa.

graça Ribeiro disse...

Chorar a dor dum filho está bem patente no filme "A Paixão de Cristo".
Sofri um dia tambem pelo meu filho que vive bem longe e precisava da minha ajuda. Chorei muito a impotência de não o poder ajudar. Nessa altura comecei a sentir uma necessidade premente de ver o filme sem perceber porquê. Pus o filme e fui vendo até à cena em que a Mãe de Jesus o vê passar e cair com aquela pesada cruz às costa. Parado, ensanguentado e exangue, ele olha para ela. E Ela só chora pelo desespero de não conseguir valer-Lhe. Nessa cena tambem parei pois no momento percebi a mensagem que me era dirigida: chorar pela impotência de não podermos ajudar aquele que amamos.
Sei como dói..sei como chorei e vivênciei...
Um abraço muito apertado Olinda, e obrigada tambem por me fazeres lembrar o significado da sexta-feira Santa.

Helena e Rui disse...

Não podia deixar de comentar. Devias escrever um livro. A tua dor eu conheço demasiado bem, demasiado igual.
Ao ler o teu texto revejo tudo que vivi com a doença e perda da Sara e nem consigo verdadeiramente deixar um comentário.
Simplesmente que te amo e, apesar destes terem sido os piores momentos das nossas vidas também foram alguns dos melhores momentos.
Foram momentos de amor, profundo, tremendo, sem defesas.
Parece que quando o medo de os perder chega ao limite, perdemos o medo e apenas amamos, amamos muito e mostramos.
Com a Sara também foi um periodo de imensa dor e imenso amor.
Um amor que continua a crescer até hoje.
Adoro-te e admiro-te minha amiga

Olinda Cristina disse...

Olha Lena, desatei num choro ao ler o que escreveste...És para mim o maior exemplo do que é passar por esta dor, e no teu caso o limite máximo desta dor...O maior exemplo, de superar a dor com o amor...Vieste-nos ensinar a todas que é possível ir ao limite e voltar a viver...Se não fosse o teu exemplo, se não te conhecesse tão bem...talvez não tivesse passado por isto da forma que passei...embora possa ainda não ter passado tudo...Admiro-te muito, muito, muito, amiga!...E amo-te. E adoro-te. E ser-te-ei eternamente grata. Por tudo. E por ainda por cima, fazeres parte e contribuires para os momentos de maior alegria na minha vida!!!!!! Como é possível???!!!

Olinda Cristina disse...

Graça, fiquei muito sensibilizada com o que contaste...não fazia ideia...Sabes então muito bem como não é fácil...Um abraço mesmo muito apertado, Graça!!!

Alexandra Solnado disse...

Fogo!!!
Não tenho palavras, Olinda.
Não tenho.

Beijo gigante.

Alexandra

Olinda Cristina disse...

Alexandra, eu é que não tenho palavras para lhe agradecer...porque se a Alexandra não tivesse passado pela morte clínica da Joana que levou a tudo o que se seguiu...de certeza que eu não teria escrito este texto...nem estaria aqui...Na verdade, de todas as pessoas na Terra, é à Alexandra que eu mais devo... Obrigada por tudo. Não me cansarei de lhe agradecer. Obrigada!