domingo, 9 de outubro de 2011

A MORTE FOI A MELHOR INVENÇÃO DA VIDA

"A morte foi a melhor invenção da vida." Gostei desta frase do discurso de Steve Jobs.

E ainda hoje dei por mim a sentir um enorme conforto ao pensar que a morte existe.

Pensei mesmo: Ainda bem que a morte existe.

Já passei a fase de a desejar. E a fase de a temer.

Tive fases da vida em que me faltava a coragem para me suicidar, mas em que o que queria mesmo era morrer. E pedia consecutivamente que a morte me fosse enviada. Que alguma coisa acontecesse que me matasse. Um acidente, por exemplo. Porque não suportava o vazio que sentia. O vazio que me fazia sentir desinteressada por tudo. Absolutamente tudo.

Não imaginava que iria ser o preenchimento dessa vazio que me ia dar a sensação mais parecida com a morte. Porque esse vazio só foi preenchido quando reencontrei a minha Alma. E experimentei a sensação de voltar a ser Alma sem corpo. Sem físico. Que é a sensação de voltar a casa. A que acedemos em meditação. E percebi que não precisava de morrer. E fiz as pazes com a vida.

O confronto com a morte, voltou com a doença do meu filho. A vida provocou-me. Eu não tinha morrido, mas o meu filho podia morrer. E a vida é sempre mais forte. Não podia lutar contra ela. Mas podia pôr-me ao lado dela. Pondo-me ao lado do meu filho. Dando-lhe todo o meu amor e fazendo tudo o que estivesse ao meu alcance para se manter vivo. Descobri o tamanho do meu amor por ele e por Ele. Descobri parte da minha coragem e da minha fé. Aliás, descobri muita coisa.


Nessa altura, das primeiras perguntadas que me foram feitas por Jesus, foi: E agora, continuas a acreditar em tudo o que acreditavas?

Eu percebi. Percebi que me estava ser perguntado se eu continuava a não ter medo da morte. Se eu continuava a acreditar que a morte era uma libertação.

Sim, continuava a acreditar. O que me atormentava era a separação do meu filho. A perda. Porque no resto, continuava a acreditar, sim. E continuo.

E por isso Lho entregava. Diáriamente. Contínuamente.

Como a Alexandra me disse nessa altura: Não é dificíl ser espiritual quando a vida está boa. Dificíl é quando ela está má.

Há dias, em terapia voltei a sentir a sensação de voltar para casa. Saber que isso é a morte, é extremamente confortante.

Mas também sei que não podemos ser nós a provocar a morte. Aliás depois de conectarmos a nossa alma já não desejamos a morte. Já não precisamos sequer dela.
Até porque descobrimos que forçar a morte é recomeçar tudo de novo. Tudo aquilo de tentamos fugir através da morte volta na nova vida em dose reforçada. Por isso não adianta nada. Só piora.

Quando passamos a viver conectados com a nossa alma, tudo faz sentido. Passamos a saber o propósito de tudo. E alegramo-nos com isso.

Passamos a ter consciência do milagre que é a vida. E percebemos que já não precisamos de esperar ou pedir um milagre. Nós já somos o milagre.

Quando percebemos o que a nossa vida conjuga: todas as nossas características, todas as nossas experiências, todas as pessoas que fazem parte das nossas vidas...e o porquê de tudo ser assim, percebemos como a nossa vida é um milagre. E a última coisa que queremos é renegar esse milagre.

Tenho a perfeita noção que esta vida é uma oportunidade única. Fantástica. Quando descobrimos todos os requisitos que tiveram que ser preenchidos para vivermos esta vida, ficamos tão espantados e tão agradecidos por tudo se ter conjugado...que não desperdiçamos. Eu tento não desperdiçar nenhuma oportunidade. Porque pode ser irrepetível. Por mais difícil que seja a experiência ela encerra objectivos que para nós são muitas vezes incompreensíveis mas absolutamente determinantes para o nosso processo evolutivo. Por isso eu agradeço tudo o que me acontece. Aceito e agradeço. Agradeço. Agradeço. Agradeço. Com o coração aberto.

A propósito, há muito pouco tempo Jesus disse-me: Se depois de teres passado por esta dor dos últimos meses, se depois te teres sentido tão magoada, se conseguires manter o teu coração aberto, serás mais destemida do que o mais destemido dos guerreiros. Porque isso é a verdadeira coragem.

E tenho percebido que o estado de felicidade dos últimos tempos tem a ver com a aceitação da dor, a aceitação da vida como ela é. Que não é como eu queria. Repito isto mil vezes. E à custa de perceber que não tenho nada do que queria para ser feliz, estou a deixar de querer.

Sei disto há muitos anos. Tento pôr em prática há muitos anos. Pensava que já tinha deixado de querer muita coisa. Se calhar até tinha. Mas a vida continua a levar-me a limites e eu vou percebendo o que afinal ainda está por fazer.

E contínuo a fragilizar. E a deixar que essa fragilização me traga a vida que é para mim. E que é muito melhor do que eu podia pedir. Lá está, até isso é um milagre.

E um dia chegará o momento de voltar para casa. E esse será outro milagre.

10 comentários:

Essencialma disse...

Quando vejo estes textos, quanto mais partilhas tenho com pessoas, mais vejo o quão semelhantes são os sentimentos de todos nós....

A diferença faz-se na escolha, vê-se no percurso já percorrido, na capacidade que cada um de nós tem ou não, de a cada dia, a cada situação, a cada patamar, escolher...
Escolher sentir a dor, escolher o desconhecido, escolher prescindir de uma enormidade de pressupostos, escolher pôr-se a si em primeiro lugar, quando tudo à volta, parece sugerir algo diferente, quando as situações e as pessoas, insistem em realçar o que temos dentro, e aí sentir toda a luz possível porque o confronto parece desigual, um verdadeiro eu, contra um falso eu, o mundo e as pessoas nele....

E quando conseguimos encontrar essa luz no meio do caos, percebemos que a realidade que achávamos existir não existe, ela era fruto da percepção que tínhamos da vida,e do que precisávamos sentir, do que tínhamos dentro...

Mas mesmo assim esse falso eu vai nos dando muito trabalho, e muitas vezes ainda nos faz crer que nada vale a pena, e que a morte naquele momento dava muito jeito!

E é quando vamos de encontro ao causador de tudo isto, o medo, que podemos experimentar o que está do outro lado da montanha!

Beijo muito grande, e obrigada pela partilha...
Obrigada por mostrares que realmente somos todos grandes companheiros de um caminho maior...
E eu fico muito feliz por desta forma te ter como companhia

Cláudia

Lurdes disse...

Nem queria acreditar no texto que escreveste. Estava a precisar ler estas palavras. Sentias uma a uma como um ensinamento profundo. Como se tudo aquilo que agora questiono ou fujo, estivesse aqui respondido na forma mais directa e simples... Nao me foi fácil ler, o que rejeito desde há uns dias para cá. Pensei como é tão fácil engendrar mecanismos de fuga. Ou melhor fugir da vida. sentir o vazio e nao ter forças para o preencher... Nao sao forças mas sim fragilizar... Posso te dizer que este texto vem encaixar no mais profundo do meu ser, e mexer no que desde há uns dias para cá, me tem afastado de tudo, tudo
mesmo. Nao te vou elogiar porque sou exagerada, acho que nao o sou, porque sou realista... Mas tocas-me e tocaste sempre e com este texto foi brutal. Como se levasse um abanão e a vida me engendrasse esta mensagem, como umas das maiores dadivas neste momento. Até quando parecia já nao existir nada. Nao sei se me transformei, mas fragilizei me um pouco mais... Porque desde há uns dias para cá nem posso ler as tuas palavras porque me comovo, ou melhor deveria era lê-las e ouvi-las todos os dias... Pensava e mal, que nunca mais iria conseguir escrever, comentar... E aqui estou...
Por isso, e num momento critico, tão critico da minha vida... Só te agradeço por estares aqui.
Bj

Anónimo disse...

Se me permite, sei o que é sentir um vazio dentro de nós... É horrível. Podemos ter quase tudo, mas sentimos (se ouvirmos a nossa voz interior) que não temos nada...
Devemos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para preencher esse vazio, tendo sempre presente que nao devemos forçar ninguém a gostar de nós. Devemos sempre ser sinceros com os nossos sentimentos, mas simultaneamente respeitar os sentimentos e as relações dos outros, e nunca tomar atitudes que nos coloquem como pedras numa relação de duas pessoas que se amam...

Anónimo disse...

O seu texto é mt interessante assim como os comentários...
Já desejei a morte, já tentei a morte, e considero q ainda nao sei nada da morte. Acredito que ainda nao chegou o meu momento de perceber o verdadeiro sentido da morte. ´Procurei a morte, tal como refere no seu belo texto, porque sentia um vazio enorme, q nao cabia dentro de mim.
Tenho lido e pesquisado sobre o verdadeiro significado da morte, mas considero a saber quase nada. O título do seu texto é uma afirmação que ainda nao consigo pronunciar. Fico feliz por ter esta certeza "a morte foi a melhor invenção da vida"...

Anónimo disse...

Vim aqui reler o seu texto e verifiquei q por lapso nao coloquei o meu nome, apenas aparece anónimo.
Chamo-me Maria

Olinda Cristina disse...

Cláudia, tudo pelo que passamos nos ajuda a não julgar o outro...os desafios são comuns, só que em diferentes fases da vida, ou em vidas diferentes. Todos havemos de chegar a um destino comum. E também eu fico muito feliz por ter a tua companhia. Beijo enorme.

Olinda Cristina disse...

E tu, minha amiga Lurdes, tens sido incondicional e sobre este texto já falamos largamente...Sabes que estou sempre aqui. Um beijo e abraço enormes para ti.

Olinda Cristina disse...

Quanto à Maria, não sei se foi a Maria que escreveu os dois textos de anónimo ou se só escreveu um deles, de qualquer forma muito obrigada pela sua presença aqui. É muito gratificante saber que de alguma forma o texto lhe interessou. E tal como lá digo, acredito que essa vazio se preencherá assim que se propuser conhecer-se melhor. Aí descobrirá a sua alma e a partir daí tudo fará sentido. Um grande abraço.

Pedro Quitério disse...

Olá Olinda.
Sempre que tenho acesso à net, venho até aqui ao seu cantinho na expectativa de mais uma leitura... ou não seria eu leitor assíduo...
Nos últimos tempos também eu digo que não temo a morte, mas daí a ser totalmente verdade... a verdade é que tenho imensas saudades de casa...
Este seu texto é um dos melhores, parabéns.
Este Steve Jobs era um ser humano impressionante... e escreveu e disse frases igualmente memoráveis.
Grande beijinho e abraço

Olinda Cristina disse...

Obrigada Pedro, pela sua companhia aqui, tão motivadora! Compreendo também muito bem o que diz e porque o diz. Beijo grande e abraço.