terça-feira, 18 de outubro de 2011

PECADO

"Reconheçamos que somos pecadores. E confessemos os nossos pecados."

Não reconheço.
Não confesso.

Estranhamente apetecia-me ter respondido alto. Nunca tal me tinha acontecido.
Ontem na missa do funeral da Avó e Mãe de grandes amigos meus.

Não acredito no pecado. Muito menos o posso confessar.

E pensei em quantas vezes na minha vida respondi em coro com o Padre. Como fazem muitas pessoas que assistem à missa.

Respondem muitas vezes sem saberem o que estão a dizer. Não acreditam nem deixam de acreditar porque pura e simplesmente não sabem o que estão a dizer. Como eu fiz grande parte da minha vida.

Nunca, mas nunca, gostei da missa. Nunca compreendi porquê tantas regras e rituais. Sobretudo tantos sacrifícios. Acreditava profundamente em Jesus. E se Jesus era Amor, porquê o pecado? Porquê o Inferno?

Fui à missa enquanto a minha mãe me obrigou. A maior parte do tempo estava na lua. Levantava e sentava quando os outros levantavam e sentavam. Ficava a apreciar e a criticar mentalmente as outras pessoas. Fazia exactamente o contrário do que se pretendia naquele lugar. Os meus pensamentos e sentimentos eram tudo menos puros. Em vez de me elevar, só me afundava. E pensava: como eu queria ter a fé desta gente! Hoje sei que tem muito mais a ver com medo do castido de Deus, do que com fé.

E durante anos pedi fé. Achava que fé estava ligada ao catolicismo. E fiz todas as tentativas. Tentei frequentar missas com devoção. Tentei confessar-me. Tudo em vão. Nada combinava com o que eu sentia. Só gostava das igrejas quando estavam vazias. Olhava para as chamadas "beatas" e pensava: o que é que interessa o que elas fazem, se dentro do peito tiverem raiva e ódio? Eu tinha o meu próprio exemplo: estava num local sagrado e só criticava tudo e todos. Percebi que dizer-se que se é crente não tem nada a ver com espiritualidade. E que eu tinha era que mudar dentro. O que sentia. Não interessava nada o lugar em que estava nem os rituias que praticava se dentro de mim estivesse escuro.

Descobrir isso foi a minha grande descoberta. Que impulsionou anos de pesquisa. Acedi a imensa teoria. Que não deixava de ser isso mesmo. Teoria. Aprender a pôr isso em prática, transformar-me, tornar-me numa pessoa melhor, para mim e para os outros, mais em paz comigo mesma, só aprendi onde trabalho agora.

Descobri o Amor de Jesus. O Amor de Deus. E a confirmação de que o pecado não existe. Nem inferno. Existe é a consequência das nossas escolhas. Todos passamos pelas consequências das nossas palavras, actos e pensamentos. Mais cedo ou mais tarde. E quem nos julga é a nossa consciência. Quanto mais elevada for a nossa consciência mais elevados serão os nossos sentimentos e atitudes. E receberemos o retorno disso. Aprender a trazer o Amor para a minha vida, é o que tenho vindo a aprender nos últimos anos. Sete anos. Precisamente um ciclo kármico.

Uma longa, mas muito gratificante e compensadora caminhada.

3 comentários:

Lurdes disse...

Obrigada por mais um texto. Que engraçado sempre pensei como tu... Visito muitas vezes as igrejas vazias... Os templos fazem-me sentir bem no meu proprio templo.
Pecados nao os entendo, ou melhor sempre achei que nao tinha e nem tenho pecados. Nao sou nenhuma Santa... Sou o que sou, porque como dizes, vou fazendo as minhas escolhas... E vivo as suas consequências. Nao existem más ou boas escolhas, existem escolhas...
Levanta, senta, decora e diz em voz alta, etc. Nunca me disse nada, o meu caminho é outro. Aqui há uns anos, entrei numa igreja na baixa, e estava a terminar a missa. Oiço o padre: "de Espanha nem bom vento, nem bom casamento". Fiquei chocada, o sermão tinhas ver com o comportamento das mulheres, como ele dizia o mau comportamento. Virei costas e vim embora. Ainda hoje me choca falar disto. Mas cada um tem o seu caminho.
O meu caminho de certo nao passa por rituais católicos... Mas rituais internos, que muitas das vezes designo por meditação. Por isso o teu texto, expressando o que sentes, fez me sentir em casa. Com as ideias deste meu templo.
Bj Gd amiga

Pedro Quitério disse...

Até que enfim... Aqui venho eu todos os dias em busca de mais um ensinamento, e hoje reparo que não é só um, são dois textos...
O do sindrome é deveras curioso, nos últimos tempos também a mim me acontece cenas variadas... e eu que atribuía essas coisas ao meu "acidente" de percurso... é bom sentir que existe mais alguem com que nos possamos identificar...
E por falar em identificar, também eu toda a vida critiquei todos os rituais da igreja católica, aquela coisa de levantar, sentar, levantar, sentar, levar a mão vezes sem conta à cabeça e ao peito, a história do pecado e consequente confesso, enfim, tantas outras... nunca as fiz... e agora sim confesso, que nas raras as ocasiões em que vou a missas, sinto-me diferente das restantes pessoas quando não procedo de igual forma...e não me importo que olhem para mim com algum tipo de apontamento...
Engraçado e reconfortante, saber que existem mais como nós.
Abraço.

Olinda Cristina disse...

Lurdes, Pedro...we are all connected...Obrigada e um xi-coração enormeeeeeeeeee para os dois.