sexta-feira, 11 de novembro de 2011

CHALLENGE

A poucos metros do sítio onde o meu filho teve o acidente. Desta vez a minha mãe. O mesmo aparato. Os mesmos bombeiros.

Já era noite. 20h. A minha mãe foi com a Lila, que trabalha cá em casa há 25 anos, fazer a habitual caminhada no parque de Rebordosa. Tropeçou, tentou agarrar-se às cordas de protecção do ribeiro, a Lila a tentar agarrá-la pelo fato de treino, mas não conseguiu, e a minha mãe caiu lá em baixo, na água e nas pedras. Não sei muito bem mas talvez tenha 2m e tal de profundidade. No Verão eram mais pedras do que água, mas com este tempo não deve ser bem assim. A Lila salta lá para baixo atrás dela...(só de pensar nisto já me emociono...) Gritam as duas desalmadamente mas ninguém as ouve. O parque estava deserto e escuro. A Lila consegue tirar a minha mãe da água, ajudá-la a subir e deixa-a deitada enquanto vai procurar ajuda. Os professores da escola nova que fica perto chamam os bombeiros. O meu irmão chega primeiro. Máscara, tala, é levada para o hospital de Penafiel e de lá transferem-na para o Hospitald de S. João, no Porto. Passa lá a noite em observações e a fazer todo o tipo de exames. O meu irmão e a Lila, também sempre com ela, com a roupa toda encharcada. Há momentos em que muita coisa acontece...

Só de manhã é que o meu irmão me liga. Tinha dito a todos: "Ninguém liga para a Cristina. Só amanhã quando tudo estiver bem..." Também só de pensar nisto me comovo...Há momentos em que muita coisa acontece...

Receber esta notícia, quando já está tudo bem, acompanhada das minhas amigas que são minhas colegas de trabalho...acompanhada da Alexandra...(Olhamos uma para a outra: sabíamos exactamente porque é que estava a acontecer...) é completamente diferente de receber esta notícia sozinha...completamente diferente de receber a notícia quando o acidente acabou de acontecer...

Lembrei-me de uma amiga há tempos me ter dito: "Lembra-te de uma coisa que foste tu própria que me disseste: O mais importante não é o que nos acontece, mas como reagimos ao que nos acontece." Tinha-lhe dito esta frase sim, mas que não é da minha autoria. Na verdade, nos momentos de crise, de choque, temos tendência a esquecer-nos de tudo o que já sabemos, tudo o que já aprendemos, e reagimos instintivamente.

A viagem de comboio para o Porto, toda a meditar. Aceder à informação. Pedir a confirmação do que achava que já sabia. Porquê? Para quê? Embora o treino nos leve a quase não precisarmos de fazer perguntas. No mesmo momento já sabemos porque é que está a acontecer. Como sempre, são acontecimentos que se destinam a todos nós que somos atingidos. Nada é por acaso. Nem nada é desnecessário. Por mais difícil que seja.

E isso era outro tema da meditação. A vida vai afunilando. Os desafios continuam. Cada vez mais incisivos. Impressionante como o mesmo acontecimento pode conter desafios tão diferentes para as várias pessoas afectadas...O desafio para mim é um, para a minha mãe é outro, para o meu irmão é outro... e é diferente consoante os diferentes níveis de consciência...o que não nos torna melhores ou piores, simplesmente em fases diferentes...

O meu pai vai buscar-me à estação. Conta-me que teve exactamente a mesma sensação que teve no acidente do meu filho. Uma sensação de extrema gravidade quando viu todo o aparato. E disse-me: "Com todos os males, a mãe foi muito protegida...muito protegida mesmo. Levemos as mãos ao Céu."... Estupefacta...o meu pai...a dizer isto...Talvez a última das pessoas de quem eu esperava ouvir isto...

Lá está. Há momentos em que muita coisa acontece.

E quando estou a entrar em casa, a cada passo que dou na direcção da porta, agradeço. Como já vinha a fazer. Agradecendo porque podia estar a entrar em casa em condições muito diferentes. E felizmente ia encontrá-la viva e com saúde.

Choro quando a vejo. Um olho completamente negro e tão inchado que não o podia abrir. Curativos na cara devido às feridas...Corpo pisado. Frágil. Frágeis ficamos todos. E quanto mais frágeis, mais humildes. Mais emocionados. Mais conectados à luz. Mais ligados. Mais protegidos. Há momentos em que muitas coisas acontecem...

Eu vim ao Porto por um único motivo: porque a amo. Não por obrigação. Não por nenhum outro motivo. Para lhe dizer isso e dar mimo.

E quando nos despedimos para dormir a minha mãe disse: "Eu podia ter-te dito para não vires, para não teres esse transtorno...mas o que eu queria mesmo era que viesses, por isso só te agradeci." Há momentos em que muitas coisas acontecem...

11.11.11

6 comentários:

Pedro Quitério disse...

Sem palavras...
Todos nós mais tarde ou mais cedo passamos por estas experiências.
Temos tendência natural para ao lermos estes textos, estes acontecimentos, a automaticamente a colocar-nos nesse lugar.... e se fossemos nós? ou então a sermos automaticamente transportados para acontecimentos semelhantes nas nossa vidas... a fazermos comparação...
O meu pai é doente coronário há muito, tenho vivido desde aí sempre em stress, quando o telefone toca muito cedo ou muito tarde, todo eu tremo...
O primeiro diagnóstico foi angina de peito, tinha eu vinte e poucos anos, e quando foi necessário recorrer a cirurgia, a primeira intervenção ao coração foi em 1995, e esta foi a segunda vez que o vi chorar (a primeira descrevo num dos meus textos), quando no pós operatório, todo entubado, e literalmente a depender de máquinas para resistir... me disse: Pede ao Senhor por mim... e eu dsse-lhe que sim...
A relação com Jesus, algo diferente para uma pessoa com 80 anos, devo-a a ele.
Sou o filho mais velho, e com isso, acho eu, sentia-me na necessidade de prestar o auxílio imediato sempre que ele precisava...
Com o meu acidente isso mudou, e ele sentiu, e eu sei por outras pessoas que ele sentiu, sabe que não pode contar comigo como contava...
Também naquele dia de Março de 2009eu disse para não lhe dizerem nada, com medo do poderia acontecer quando soubesse... Tinha saído do hospital poucos dias antes, depois de estadia ainda prolongada e, depois dos médicos uma noite dizerem que não sabiam se ele aguentava... mais uma vez felizmente aguentou-se, eu é que não, mas como a Olinda disse num dos textos, isso já é outra história...
11.11.11
Beijo e abraço.

Lurdes disse...

Há momentos em que muita coisa acontece...
Esses momentos são momentos especiais, são sinais... Que fragilizam... Hiperbolizam o que o céu tem para nos transmitir...
Não sei comentar, aconteceu-me pela primeira vez, sinto mas não escrevo...
Talvez seja para te dizer pessoalmente... ou não...
Respeito...
Bem sabia que nunca sou exagerada quando te digo o que sinto, existem seres especiais que se cruzam no meu caminho, especiais para mim...
Ontem quando me contaste e sem saberes pormenores pensei que realmente não existem acasos, existem momentos em que se os deixarmos fluir e sentir, percebemos que a vida nos dá e a vida... Se os dé é porque é assim... Colocou-me ali...
Não consigo comentar, não vou insistir...
AMIGA!
Um gd abraço e as melhoras da tua mãe.
Lurdes JC

Diario de um Sonho disse...

Gosto muito de todos estes textos mas este fez-me ficar com lagrimas nos olhos talvez porque senti que a vibração do amor que tu escolheste priorizar.Parabens pela escolha, mimos para ti e um beijinho para tua mãe por te ter posto na vida e poderes ser minha amiga do coração.
Obrigado à vida e a Ele.
Lena

Olinda Cristina disse...

Obrigada Pedro, muito obrigada! Tão emocionante tudo o que conta...Estas experiências ajudam-nos muito mais do que temos noção, um dia olhamos para trás e percebemos o que mudamos à custa das coisas difíceis pelas quais passamos, não é Pedro? Outra coisa é que acho que nos devíamos tratar por tu, que diz? Obrigada por este relato tão comovente, e um abraço muito apertado! E coragem!

Olinda Cristina disse...

Lurdes, minha amiga, aquela amiga sempre presente a quem agradeço tanto cuidado! Mil vezes obrigada e mais um abraço daqueles sentidos e apertados!

Olinda Cristina disse...

E a ti Lena...se hoje priorizo o amor que sinto, em grande parte devo-o a ti, e ontem foste especialmente importante para mim. Aliás, já to tenho dito muitas vezes: tu és especialmente importante para mim. Sempre. E é engraçado que a vida está sempre a fintar-me...neste texto não falei em ti (por acaso falei, já me estava a esquecer, mas não disse o teu nome) porque estou sempre com receio de expôr outras pessoas. Continuo a ter medo da exposição e continuo a não contar muitas coisas, apesar de Jesus já me ter dito que eu faço auto..., agora não me lembro a expressão que usou mas será o mais parecido com auto-censura,vai daí não falei de ti, e tu vens e comentas e depois eu penso: mas porque é que se eu tinha vontade de falar na Lena, não falei? Enfim...Amiga, adoro-te e sou muito feliz por sermos amigas do coração.