terça-feira, 22 de novembro de 2011

A NOSSA ALIANÇA

Há dois dias ao ver uma fotografia de uma menina careca, com cancro e um ursinho de peluche na mão tive um ataque de choro.

Sinto uma tão grande fragilidade em relação a este assunto...

Acho também que esta foto me fez lembrar de uma menina...

Que dividiu o quarto com o meu filho. Talvez durante o período do costume: 5 dias. Só uma cortina separava as camas. Tratava a mãe com uma agressividade chocante. Já o pai tratava com uma meiguice desconcertante...O pai, que vim a saber era psicólogo, passava a maior parte do tempo a ler enquanto lá estava, e não havia menina. Ela concordava com tudo e falava-lhe com uma voz muito doce, baixinha e quase derretida... Quando chegava a mãe, até a voz se transfigurava. Ficava irreconhecível. Falava-lhe aos gritos, aos berros, com uma voz que não parecia dela. Embora eu pudesse compreender o que se estava a passar com a menina, a verdade é que ninguém compreendia.

Um dia a mãe, no corredor, perguntou-me como é que eu conseguia estar sempre tão serena e ter uma relaçao tão pacífica com o meu filho. Sem saber muito bem o que lhe responder, pois mal a conhecia, disse-lhe que praticava meditação. Ela respondeu-me que também já tinha tentado fazer através de uns CDs de meditação da Alexandra Solnado. E perguntou-me se conhecia os livros dela. Sim, trabalho com ela. Mostrou-se muito interessada e até íniciamos uma espécide de amizade. Curta. Muito curta. A doença da filha estava num estado muito avançado. Avançadíssimo. Ela era advogada e continuava a trabalhar para tentar custear um tratamento que esperava que a filha fosse fazer a Espanha. Interroguei-me como é que conseguiria ela concentrar-se fosse no que fosse. Fazer fosse o que fosse. A vida leva-nos mesmo ao limite do limite. Médicos já não aconselhavam viagem porque poderia não aguentar o transporte nem de avião, nem de ambulância. Foi dos casos que mais me marcaram. A mim e a todos os que nos visitavam. O sofrimento da menina (com cerca de 9 anos) era visível e audível.

A mãe não tinha mais que lhe fazer. Era meiga e tinha toda a paciência do mundo. A filha descarregava nela toda a raiva e revolta. Embora a questão não seja tão simples e linear quanto isso.

Lembro-me muitas vezes delas...

E no dia seguinte a este meu ataque de choro, o meu filho, ao acordar, volta a dizer-me que todos os dias acorda com o sabor da quimioterapia na boca...estremeci...

Na semana passada, quando a minha Mãe foi operada, duas amiga minhas, a Vânia e a Laura, foram ter comigo ao hospital e fomos a um café perto, que fica em frente ao IPO. Quando fui pagar ao balcão vi o boião de chupa-chupas. Ia lá sempre comprar uma dúzia ou duas, na manhã em que começavam as sessões de quimio. O meu filho tentava enganar o sabor da quimio e com isso tentava não vomitar tanto. Mas de pouco ou nada adiantava.

Ao sair do café encontrei a professora que acompanhava os meninos lá no IPO e a assistente social.

Já sabia que ia ser confrontada com o passado e esse reavivar não ia ser fácil.

E hoje, quando estava a trabalhar, e dei-me conta que estava a usar uma aliança no polegar que já não usava há algum tempo. Uma aliança que tinha comprado na viagem a Munster, Alemanha, aquando da consulta do meu filho. Compramos duas alianças, uma para cada um, por sugestão do meu filho, que disse que elas simbolizariam sempre o nosso amor e união.


5 comentários:

Pedro Quitério disse...

O confronto com o passado é aqui muito bem relatado...
Será que tem de ser sempre assim? O passado não deveria ser passado e pronto?
Quem sou eu para fazer estas perguntas? Não fazemos ideia das coisas até elas serem vivenciados por nós...
E essa ideia do teu filho de comprarem duas alianças que vos une, dá para ver o Amor que é sentido mutuamente.
Realmente a vida sabe quando a fragilidade tem de voltar... nos momentos em que mais é precisa, por mais que assim nós achemos o contrário.
Forte abraço.
Pedro

Pedro Quitério disse...

Curiosa a palavra que apareceu na "Verificação de palavras" para introduzir comentário.
São sempre palavras esquisitas e impronunciaveis mas esta....
CUREM
foi no mínimo acertada para ti, Olinda...

Lurdes disse...

Obrigada por partilhares esta experiência... experiências de vida...
Lembro-me muitas vezes de ti...
O teu passado... ajuda a entregares cada vez mais, porque isso de confiar é mesmo assim... Confias... Entregas... e o passado... vem consolidar ainda mais a tua entrega... a tua escolha...
bj gd Amiga
Lurdes Jóia

Olinda Cristina disse...

É exactamente como dizes, Pedro: o passado que nos fragilizou volta, quando a fragilidade tem que voltar. Se fragilidade não nos for provocada nós rápidamente podemos voltar ao que eramos.
Obrigada por tudo o que dizes. Abraço apertado.

Olinda Cristina disse...

E para ti Lurdes, outro abraço apertado e obrigada por tudo!