terça-feira, 13 de dezembro de 2011

PERDI TUDO PARA ME GANHAR A MIM

"E um livro faz-se com palavras que para quem te conhece sabe que nem são precisas palavras... para quê o verbo???"

Estas foram as palavras da Lurdes Jóia há dois dias num diálogo que mantinhamos por escrito, a propósito de um vídeo sobre escrita que a Cláudia me tinha dedicado.

Eu não respondi. Até hoje. Porque essa era a questão que me estava a fazer não ter voltado a escrever aqui. Nem ela imaginava. E só vai saber agora, ao ler isto.

Estive doente nesta última semana. Parada. Que também é para isso que ficamos doentes. E encantada por estar parada. Por nem poder pensar em sair de casa. Por não poder, nem querer fazer outra coisa que não fosse estar comigo. A interiorizar. A meditar.

E no feriado, quinta-feira, estava a pensar no meu filho, em não poder estar com ele nestes dias, e estava triste. E de repente, sem esperar, senti a energia de Jesus como se Ele se sentasse ao meu lado no sofá. Normalmente sinto a sua presença mais forte quando elevo a minha energia, em meditação. Não assim. E lembrei-me de quando o senti a caminhar ao meu lado nos corredores do Hospital de S.João, quando tinha acabado de receber a notícia da doença do meu filho. E voltei a chorar com enorme emoção. E a comunicação muitas vezes dá-se na dimensão do não verbo. Não há palavras, percepcionamos, sentimos, sem palavras. Como neste feriado.

Por isso muitas vezes, quando acontece dessa forma, lhe peço uma mensagem através de uma música, para receber algumas palavras. Já no final da conexão, liguei o computador (sempre sistema aleatório- pasta das músicas preferidas) e pedi uma música. "By your side", da Sade.

É sempre impressionante a precisão das músicas. Sempre.

No Sábado nova meditação. A conexão foi muito forte. Mas com tanta informação que dava por mim a quebrar a conexão com pensamentos, porque estava com receio de não conseguir lembrar-me de tudo o que se estava a passar. Comecei por Lhe pedir ajuda para me conectar melhor porque estava a sentir que uma parte de mim ainda estava no sofá. É completamente diferente se sentir que já não estou ali.

E a seguir perguntei se podia não escrever sobre o que estava a acontecer. Porque a minha preocupação em fixar tudo o que se estava a passar para depois escrever estava a impedir-me de viver a experiência com toda a entrega. Ainda por cima que tudo se estava a passar no domínio do não verbo. Como é que eu ia traduzir por palavras tudo aquilo?

Jesus assentiu.

E estou desde esse dia com uma sensação estranha. Porque quando a meditação acabou pensei: que bom, afinal lembro-me de quase tudo. Mas cada vez que me sento ao computador para escrever bloqueio. E não lembro de nada.

Hoje percebi. Tenho que escrever sobre este bloqueio. Mostra como temos que ter muito cuidado com o que pedimos. Na altura achei a informação tão importante para mim, era sobre a perda, sobre todas as perdas que vivi ao longo da vida. E era tão importante que hoje acho impossível não me lembrar de nada.

Ah...era sobre a perda de mim. Estou-me a lembrar de alguma coisa...mostrou-me que tive de perder tudo porque me tinha perdido a mim. E mostrou-me quando (muito novinha) e porque é que eu comecei a perder-me a mim. E foi preciso perder tudo para me ganhar a mim.

Ganhar a mim e não só. Enquanto perdia umas coisas ganhava outras. Como fé. Como confiança. Como capacidade de entrega.

Ao mesmo tempo ia percebendo que afinal nada do que perdia era meu.

Meu, é quem eu sou. Só.

De resto, nada nem ninguém foi meu.

Ninguém possui outra pessoa, ninguém é dono de ninguém, nem os maridos das mulheres, nem as mulheres dos maridos, nem os pais dos filhos. Ninguém é dono de terra. Ninguém é dono de céu. Acreditar no contrário é viver em ilusão. E por isso as guerras. Quando todos perceberem isso, quando todos tiverem perdido tudo, ao limite, e perceberem que afinal não precisam de possuir coisa nenhuma, que podem ter tudo sem depender, sem se acharem donos, e compreenderem que tudo existe em abundãncia para desfrutar, partilhar, e não para possuir, aí haverá paz no mundo. E fartura. Porque na natureza, há que chegue para todos. E ainda sobre. Não fossem uns acharem-se os donos do mundo.

Na verdade o problema está em não sabermos ter. Em depender do que temos. Até podemos ter tudo. O Universo é abundância. Mas não podemos confundir quem somos com o que temos.

Hoje praticamente não tenho nada. Nunca tive tão pouco. E também nunca tive tanta paz. Tanto amor. Tanta confiança. Tanta realização. Tanta boa-disposição. Tanta conexão. E afinal, tanto conforto. E afinal, tanta abundância.

Tive que perder tudo para encontrar a única coisa que restava: eu.

5 comentários:

Lurdes disse...

Como te percebo amiga! Como! Nao sinto com tanta intensidade, como tu... Mas na verdade só te posso dizer:
que me ajudas cada vez mais a crescer e a receber tudo o que vem do céu...
Um dia o verbo soou... E criou...
Daqui a alguns dias irás compreender... Muito do que te tenho dito ultimamente...
Bj gd
Lurdes jóia

Chalezinha disse...

Ou então perdeu o necessário para ganhar 'tudo'!
Ganhou-se a Si!
Confirma assim que ter para ser não é a via!
A via é sentir para se Ser.
Um Ser desnudo de tudo que lhe é exterior simplesmente É.
O resto é acessório, são apenas 'bombons' para o ser humano dual e que também o merecemos ou então ferramentas para nos curarmos e cada vez mais percebermos e sentir que fazemos parte duma Unidade Maior! Foi essa a sensação que tirei ao ler o seu desabafo.
Abraço
Sandra Pereira

Olinda Cristina disse...

Abraço grande Lurdes e Sandra!

Chalezinha disse...

Apesar de me parecer estranhamente absurdo senti que tinha que escrever esta sensação e quiçá confirmação que tenho ao reler este seu texto!
Não sei como, abri o blog e comecei a ler onde este abriu, crendo que era a sua última publicação.
Só achei estranho 'estar doente' novamente, pensei se seria uma gripe!
Eis que ia comentar um pensamento que me ocorreu e que já se desvaneceu, pois dei conta que já tinha comentado este texto que foi o primeiro texto que li do blog, mas agora e enquanto lia não me lembro nada de o ter lido antes e vejo que comentei o que estava já expresso nas duas palavras, contudo não vi lá isso, e sei que senti e percebi alguma coisa qd li a primeira vez, e quase tenho certeza de o que li agora foi tudo novo para mim.
Estou mesmo 'aparvalhada' se calhar tenho os neurónios entorpecidos, ele há cada uma que por mais que tente perceber não percebo. De qualquer forma um bejinho. Sandra Pereira

Olinda Cristina disse...

Sandra, sabe que me acontece reler um destes textos, como se fosse a primeira vez que o leio? Principalmente agora com o livro, ao corrigi-lo, há muitas coisa que parece que estou a ler pela primeira vez...É como diz: ele há coisas! Beijo grande.